Pintando o retrato do Desejado

D. Sebastião desaparece e cria-se o mito: um dia, ele voltaria e restauraria a glória lusitana

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2017 | 02h00

O rei de Portugal, D. João III, governou de 1521 a 1557. Para o Brasil, é o implementador das capitanias hereditárias, da fundação de Salvador e de tantas obras que lhe valeram a alcunha de “o colonizador”. Na prática, foi o primeiro monarca a dar atenção ao Brasil, à medida que as Índias entravam em colapso. Teve nove filhos, porém a maioria morreu cedo. Seu primogênito, Afonso, não chegou ao segundo mês de vida. A segunda, Maria Manuela, casou-se com Filipe II da Espanha. Os incômodos laços da coroa espanhola com Lisboa eram fortes: além da esposa portuguesa, o rei espanhol era filho de Isabel de Portugal e, como tal, bom pretendente ao trono lusitano. 

A esperança do pequeno reino ibérico estava em João Manuel. A esposa do príncipe herdeiro era Joana de Áustria. A gravidez da jovem princesa encheu o país de alegria. A morte precoce de João Manuel colocou todos em polvorosa. No ventre de Joana estava o futuro. As preces se elevaram em intensidade. Houve procissões. No dia 20 de janeiro de 1554, 18 dias após a morte do pai, o jovem herdeiro chorava com saúde perfeita. Recebeu o nome do santo do dia, o mesmo que protegeria a futura capital fluminense na colônia: Sebastião. 

Poucas vezes na história uma criança causou tanta alegria. Tendo obtido sua independência ao lutar contra castelhanos, Portugal era um bravo reino com um vizinho poderoso. No século 14, um drama sucessório tinha quase feito Lisboa sucumbir ao controle estrangeiro. A cada 200 anos, parecia que os lusitanos tinham um susto dinástico. D. Sebastião já era, ao nascer, o Desejado. 

A morte do avô o tornou rei com 3 anos de idade. A situação era similar a outra no futuro: nosso imperador Pedro II que, aos 5 anos de idade, se tornou a esperança da nação. D. Sebastião foi educado com rigor. Os jesuítas fizeram um bom trabalho. Por temperamento ou sucesso dos seus tutores, cresceu com religiosidade extrema. 

D. Sebastião era o monarca de um império em crise. Os dias de glória e de expansão de D. Manuel, o Venturoso, seu bisavô, tinham ficado para trás. O governo não conseguia enfrentar bem a concorrência e a expansão dos impérios vizinhos. O ouro e a prata chegavam em grandes quantidades para a vizinha Espanha. O pau-brasil e a pimenta quase não cobriam as despesas do empreendimento ultramarino português. O ultramar que fizera a glória portuguesa era, agora, um “sorvedouro de homens e fazendas”. Pequenos sucessos, como o estabelecimento em Macau, não faziam a volta aos dias do monopólio das especiarias que tinham patrocinado o luxo do Mosteiro dos Jerônimos. 

Todas as pessoas tomam alguma decisão errada. Quando é um monarca, é ainda mais grave o efeito da escolha. D. Sebastião saíra a combater um potentado islâmico no Norte da África. Era jovem, solteiro e sem herdeiros. A ação de partir para o Marrocos era temerária. Fernando Pessoa imaginou a despedida no Tejo com versos melancólicos: “Foi-se a última nau, ao sol aziago. Erma, e entre choros de ânsia e de pressago”. O resultado é bem conhecido. A batalha de Alcácer Quibir, 4 de agosto de 1578, revelou-se um desastre gigantesco. A nata da nobreza portuguesa morreu ou foi capturada. Os resgates empobreceram Portugal. Pior: o rei desapareceu na poeira do campo. A independência do país naufragava. 

O velho cardeal D. Henrique assumiu um curto tempo. Filipe II da Espanha tomou o trono após campanhas militares e de suborno. Como ele diria: “Portugal eu herdei, conquistei e comprei”. Os 60 anos seguintes seriam de União Ibérica (1580-1640), passando o Brasil também ao poder dos Habsburgos. 

A crise e domínio estrangeiro fizeram com que a figura do rei desaparecido crescesse ainda mais. Sua volta continuava a ser aguardada. Havia pouco a se esperar de um país no qual metade da população esperava o Messias e a outra metade, D. Sebastião, era a fala irônica de um diplomata, comentando a espera do Desejado e a grande quantidade de cristãos-novos em Lisboa. 

O Desejado desaparecera sem um relato unívoco sobre sua morte. Surgiram D. Sebastiões em Portugal e em Veneza. Criou-se um mito: um dia, El-Rei voltaria e restauraria a glória lusitana. O encoberto, a figura que eletrizou a consciência europeia, estava incrustado na história e na imaginação popular.

Nossas mazelas seriam todas curadas pela chegada de um governante justo. O sebastianismo revelava uma maneira de pensar o mundo a partir de uma futura solução mágica. Do fim do século 16 até hoje, cresce a expectativa do governante perfeito. Como na peça Esperando Godot (Samuel Beckett, 1952), a ansiedade pela chegada paralisava a ação. O grande defeito dos messianismos é a transferência da ação prática e transformadora do momento para o dia da posse do salvador. 

O país começará quando chegar o político impoluto que vai mesmerizar a nação abalada pela divisão política e fustigada pela crise. Só ele nos unirá e nos redimirá. Claro que D. Sebastião pode ser de esquerda ou direita. Óbvio que o encoberto é mais inteligente do que a média, mais brilhante, mais cheio de ideias e puro como uma vestal diante do fogo sagrado do Estado. Quando será que o povo de Lisboa vai entender que não existe um redentor externo, que o mito é um mito? Quanto tempo terão de debater para admitir que a solução é lenta e passa pela sala de aula e não pelo Ungido? Afinal, é de Portugal que estamos falando, não é? Bom domingo a todos vocês. 

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