Pinochet: o horror revisitado

Em livro, chileno Heraldo Muñoz, diplomata e ex-assessor de Allende, reabre feridas da ditadura

Entrevista com

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Poucos ditadores foram tão minuciosamente escrutinados pela literatura latino-americana quanto o chileno Augusto Pinochet (1915-2006). O general que comandou durante 17 anos um dos regimes mais brutais do mundo - responsável por mais de 3 mil mortes e desaparecimentos, além de 28 mil casos de tortura - teve seu duro rosto marcial e seus medonhos óculos escuros transformados na própria personificação do terror dos regimes militares.

Uma figura assim, tão caricata de suas próprias brutalidades, dificilmente teria uma nova faceta a revelar. Mas o chileno Heraldo Muñoz, membro ativo do governo socialista de Salvador Allende durante o golpe de 11 de setembro de 1973, conseguiu transformar o que já seria um excelente relato emocional numa análise acurada do contexto político que selou o destino não apenas do Chile, mas de vários países do mundo que serviram de tabuleiro para o tenso jogo de interesses entre EUA e URSS nos anos 60 e 70.

Muñoz - que foi embaixador do Chile nas Nações Unidas até o início do ano, quando assumiu o cargo de diretor do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) - conta no livro A Sombra do Ditador - Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Zahar, 394 páginas, R$ 59) sua aventura como militante combativo (e combatente) nos anos de chumbo. Mas, mais do que isso, revela documentos pouco conhecidos sobre o envolvimento dos EUA no golpe e sobre o tenso bastidor do governo Allende, que tornou insustentavelmente aguda a divisão política do país a ponto de sofrer o que seria o primeiro golpe contra um líder marxista eleito democraticamente. A seguir, os principais trechos da entrevista que Muñoz concedeu ao Estado, de Nova York, por e-mail:

O sr. descreve um Pinochet astuto e oportunista, mas não muito inteligente. Não é demais supor que um homem assim tenha sido capaz de ficar no poder por 17 anos, resistindo não apenas às pressões dos democratas, mas passando para trás seus rivais militares também?

Pinochet se manteve no poder por uma combinação de fatores. Primeiro, ele tinha uma capacidade política inata e uma certa sagacidade, embora carecesse de bagagem cultural ou inteligência. Além disso, ele foi hábil em concentrar na polícia secreta da ditadura, a Dina, não apenas seu poder de repressão contra a dissidência, mas também contra qualquer sinal de desafio à sua autoridade proveniente de seus colaboradores mais próximos, fossem eles civis ou militares. Por outro lado, é importante lembrar que uma grande parte dos chilenos queriam, principalmente no início da ditadura, o restabelecimento da ordem e o fim da polarização política que caracterizou o último ano do governo Allende. Além disso, a Guerra Fria também ajudou, pois os EUA viram em Pinochet um aliado contra o comunismo.

Como o sr. compara as ditaduras do Chile e do Brasil?

O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a ditadura Pinochet, o que não é surpreendente se você considerar que alguns dos idealizadores do golpe no Chile reuniam-se regularmente na embaixada brasileira em Santiago. A ditadura brasileira também assessorou o regime Pinochet em técnicas de tortura e deu enorme apoio financeiro de emergência. No Brasil, entretanto, a ditadura foi mais institucional, menos personalista. Além disso, foi uma ditadura que teve a capacidade de fazer sua própria transição. E apesar de ter sido mais curta que a ditadura chilena, foi igualmente dura em termos de perdas humanas e torturas.

Seu livro torna clara a participação dos EUA no golpe no Chile, transcrevendo diálogos entre Pinochet e Henry Kissinger, secretário de Estado do então presidente americano Richard Nixon. A política americana para a América do Sul mudou quanto de 1973 para cá?

A ex-presidente do Chile Michelle Bachelet uma vez me contou uma piada que era assim: Sabe por que não há golpe de Estado nos EUA? É porque lá não existe uma embaixada americana. Mas as coisas têm mudado. Primeiro, pelas prioridades que os EUA têm hoje em outras partes do mundo, especialmente depois do 11 de setembro de 2001. Depois, porque o presidente Barack Obama quer inaugurar uma nova página de relações com a região, embora os frutos sejam escassos.

O que há em comum entre a direita que venceu as eleições do Chile em janeiro e a que governou o país nos 17 anos de ditadura Pinochet?

A direita chilena não fez ainda sua mea-culpa por ter dado apoio ativo à ditadura de Pinochet. Há setores importantes da direita que rechaçam as violações de direitos humanos, é verdade. E o próprio presidente Sebastian Piñera (que assumiu em março rompendo uma hegemonia democrática da esquerda que durou de 1990 a 2010) votou contra a continuidade do regime Pinochet no plebiscito de 1988. Na verdade, a direita sabe que, para ganhar eleições, precisa hoje afastar-se da herança de Pinochet. Mas ainda há uns poucos dentro do governo que relutam em fazer isso, mesmo pagando um alto custo político.

O sr. conta que, um dia antes do golpe de 1973, Allende se preparava para propor a realização de um plebiscito sobre sua permanência no poder. A prática tem sido muito repetida nos últimos anos por presidentes sul-americanos de esquerda. É possível estabelecer alguma comparação entre estas duas formas de fomentar uma suposta democracia participativa direta?

Mas aquela foi uma consulta diferente. O que Allende buscava era uma saída política para a crise. Ele não planejava mudar a Constituição ou outras normas vigentes no país. O plebiscito de 1973 teria evitado um banho de sangue que a ditadura provocou. Provavelmente, Allende teria sido derrotado, ainda que ele tivesse esperanças de convencer o povo chileno usando seus melhores argumentos.

A SOMBRA DO DITADOR

De Heraldo Muñoz. Editora Zahar (tradução Renato Aguiar, 396 págs., R$ 59).

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