Pink Wainer testa os limites da aquarela

Há três anos, em sua mais recente exposição, Pinky Wainer usou vestidos para desnudar a alma feminina em grandes e dramáticas telas. Nesta quarta ela inaugura uma nova mostra na cidade, em que segue na direção oposta. O universo feminino continua a ser seu tema central, mas nos 160 trabalhos expostos na Galeria Millan prevalece uma necessidade cada vez maior de se ater às questões formais da arte em vez de dar vazão a aspectos emotivos e intimistas."Afinal, arte não é terapia", afirma a artista, que considera esse exercício com a aquarela e outros materiais inusitados, como fuligem de vela, látex, iodo e linha cirúrgica, um sinal de maturidade.Pode-se falar deste trabalho no plural ou no singular. São 160 obras - no início eram 170, mas dez delas foram retiradas na fase de montagem da exposição, não por serem as menos interessantes, mas para manter o equilíbrio do conjunto. No entanto, todas partem de uma mesma figura feminina e do mesmo desejo de voltar a experimentar as possibilidades da aquarela em pequenas superfícies de papel.A aquarela foi a primeira forma de expressão da artista. Pinky sempre foi aquela "menina que desenhava bem", mas só começou a pintar com 24 anos, depois de ter seu segundo filho (já é avó aos 45 anos). Seu pai, o jornalista Samuel Wainer, resolveu presenteá-la com materiais de pintura. De 1984 - quando realizou sua primeira exposição - até 92, a artista só trabalhou com a aquarela.Ao reatar com esta técnica, um ano atrás, Pinky se permitiu correr todos os riscos. Ao invés de usar um papel de maior gramatura, que garante um pouco mais de tempo para executar uma obra, optou por uma superfície extremamente lisa, que absorve a pincelada muito rápido."O que eu mais queria era exercer a pintura, correr os riscos, testar os materiais. Meu interesse era voltar a trabalhar pequeno, pertinho do nariz", resume. E acrescenta: "Me interessava o número grande de trabalhos, pensava muito na questão da linha, nas manchas de cor".A unidade do conjunto é reforçada pelo título da mostra: 1 Mulher, 2 Cachorros: Uma biografia. A mulher em questão não é nenhuma em particular. A figura que se repete nos trabalhos foi tirada por Pinky de uma lição de anatomia. Trata-se de uma figura totalmente desarmada, sem nenhuma conotação erótica, que encara o espectador de frente.Foi a partir desse modelo que Pinky começou "a brincar de Deus". A cada trabalho, a figura ganha contornos, cores e formas um pouco distintas. Às vezes, chega a ganhar um órgão sexual masculino, tornando-se bissexuada, ao que a artista costuma chamar de "anjo".O sexo, aliás, é uma questão central nessas aquarelas, como se toda a tensão dessas figuras se concentra-se na região do púbis e dos seios. Não é à toa que a mostra se encerra com a figura de dois cachorros cruzando. Convém esclarecer, no entanto que não há nada de erótico ou pornográfico neste trabalho. Na verdade, trata-se de uma visão bem melancólica da natureza humana."Acho o universo feminino muito chato. Mas é o meu", lamenta ela, lembrando que, por mais que trate de mulheres ao pé da letra, por mais que fale de sexo, de liberdade, de dor, não pretende propor uma reflexão psíquica ou social sobre o tema. "O que há de mais feminino são as cicatrizes", afirma Pinky, referindo-se a trabalhos como o que mostra uma mulher "cortada e costurada" como se tivesse se submetido a uma cirurgia.Uma Mulher, Dois Cachorros: Uma Biografia - Galeria Millan (R. Estados Unidos, 1.581. Tel: 852-5722) - De 2.ª a 6.ª, das 10h às 19h; sáb., das 11h às 14h.

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