Pinceladas sobre o mundo de Chekhov

Versão de 'O Jardim das Cerejeiras' merece tons impressionistas

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2014 | 02h09

Anton Chekhov tornou-se, ao longo dos anos, sinônimo de teatro realista. As primeiras montagens de suas peças, pelo Teatro de Arte de Moscou, inauguraram um novo estilo de interpretação: Estética que marcou o século 20, espraiou-se pelo cinema e ainda é majoritária.

Com estreia marcada para hoje, a encenação do diretor Marcelo Lazzaratto para O Jardim das Cerejeiras renega essa convenção e tenta compreender o autor russo sob outro prisma: "Mais impressionista do que realista", argumenta ele, que conduz a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. "Existe a materialidade desse jardim, ele é real, mas cada um dos personagens o enxerga de uma maneira particular. Ele traz um caleidoscópio de visões sobre o mesmo tema."

Nessa, que é a última obra deixada pelo dramaturgo, acompanhamos a história de uma família de aristocratas que se vê prestes a perder sua propriedade: uma casa cercada por um imenso jardim de cerejeiras.

Na época em que escreveu, Chekhov foi muito criticado pela ausência de conflitos claros e pela fragilidade de sua estrutura. Muitos viam como demérito a nova linguagem que ele vinha instaurar. Em suas peças, afinal, a tênue fábula é sempre o que menos importa. Sua força está na capacidade de construir figuras humanas complexas, matizadas, rasgadas por contradições.

O viés impressionista ambicionado por Lazzaratto se manifesta de diferentes maneiras. Transparece na construção das cenas, que tendem ao imobilismo e assumem a aparência de paisagens. Também pauta a escolha da cenografia: várias cortinas de fios brancos que delineiam um ambiente tão abstrato quanto estático. "Essa estaticidade tenta dar conta da sensação que atravessa essas personagens." Os fios também servem para embaralhar um pouco a visão. "Essas figuras são como fantasmas, são a latência do que poderiam vir a ser", observa o criador. "Ali, não é exatamente por meio da ação, mas do estar no mundo que as coisas se realizam."

Diante da perspectiva de perder a casa onde viveram seus avós, a protagonista Liuba pouco faz. Ao menos, se quisermos ler sua reação segundo os princípios contemporâneos do utilitarismo e da eficiência. A reação de seu irmão, Gaiev, segue em direção semelhante. Ele até tenta esboçar um movimento de reação, buscando dinheiro para pagar a hipoteca vencida, mas é prontamente abatido quando adentra o mundo em que os negócios acontecem.

Por mais dolorido que seja o percurso desses seres, Chekhov não esquece de temperá-los com humor. Ele mesmo definia a peça como uma comédia. "Não uma obra que convida ao riso rasgado, mas uma comédia humana, na qual todos tendem um pouco ao patético, em que convivem a esperança e a derrota", aponta o diretor.

No contexto russo, o autor de A Gaivota e As Três Irmãs sempre foi visto como um artista menos dedicado à política e mais interessado nas emoções humanas e na vida privada. O Jardim das Cerejeiras vem sublinhar a imprecisão desse diagnóstico. No drama de uma família está contida a ruína de um mundo, todo um modo de viver que se esvanecia.

Em oposição à Liuba e a sua atitude contemplativa, coloca-se a figura de Lopakhin. Filho de servos, esse homem se fez a partir do próprio trabalho. Tornou-se um rico comerciante e não compreende a inércia daquela nobre mulher. Ela poderia, ele aconselha, derrubar as árvores, dividir os terrenos em lotes, construir chalés para os turistas passarem o verão. Ela nem cogita sua proposta.

Em uma sociedade em transformação, senhores e servos não sabiam mais encontrar seus lugares. Às vésperas da Revolução Russa, o escritor observava o declínio da aristocracia rural e a ascensão da burguesia capitalista.

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