Pinacoteca reúne obras de Antonio Henrique

Pintor do clã Amaral ganha mostra de 160 trabalhos feitos entre 1958 e 2012

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2013 | 18h44

Curadora da retrospectiva do pintor Antonio Henrique Amaral na Pinacoteca do Estado, a crítica Maria Alice Milliet chama a atenção para o fato de o artista ser um dos raros, entre os brasileiros, que “não voltou as costas para os países vizinhos”. De fato, seu diálogo com a América Latina começou cedo. Nascido em São Paulo há 78 anos, ele viveu dos 4 aos 6 em Buenos Aires, na curta estadia argentina da família. Aos 23, voltou à capital portenha, depois de estudar gravura com Lívio Abramo (1903-1992). No Chile, fez sua primeira exposição internacional em 1958, viajando depois para aperfeiçoar seus estudos de gravura no Pratt Graphics Center de Nova York, justamente em 1959, ano em que o poeta Ferreira Gullar, ao qual seria associado por ilustrar seus textos jornalísticos, lançou o Manifesto Neoconcreto.

Caminhando ao lado dos 160 trabalhos de sua retrospectiva, Antonio Henrique diz que nunca se filou a uma escola, apesar do namoro com o surrealismo no começo de carreira e do flerte com a arte pop ao trocar, nos anos 1960, as gravuras em preto e branco, que incorporavam a estética do cordel, pela pintura a óleo. Quando o regime militar intensificou a perseguição aos militantes de esquerda, ele lançou um álbum com xilogravuras coloridas, O Meu e o Seu (1967), com prefácio de Gullar, em que questionava a república dos generais com imagens de fardas e bocas soltas no espaço, prontas para gritar.

Foi nesse mesmo ano que estreou a peça O Rei da Vela, no Teatro Oficina, dirigida por José Celso Martinez Correa. A versão tropicalista do texto de Oswald de Andrade foi uma espécie de epifania para Antonio Henrique. “Posso afirmar que, sem ela, a série das Bananas, que começaria no ano seguinte, não teria existido”. Foi na estreia da 1ª Feira Paulista de Opinião, em junho de 1968, que o pintor construiu uma banana de 2 metros, feita de papier-mâché, para ser exposta no saguão do Teatro Ruth Escobar, onde eram apresentadas peças de Guarnieri e Boal. Ela foi destruída, mas há fotos que mostram o grupo musical Os Mutantes, que lançou Rita Lee, com sua escultura efêmera, modelo para pinturas de grandes dimensões que tornaram famoso o pintor.

“Veio o AI-5 (que fortaleceu a linha dura do regime militar, em 1968) e me dediquei a pintar bananas como um ato de deboche, um gesto sarcástico contra os militares que haviam transformado o Brasil numa república de bananas”, conta. E, paradoxalmente, foi com as bananas que ele conquistou o mercado internacional, ao expor os quadros na sede da Organização dos Estados Americanos de Washington e, depois, na Cidade do México e Londres, em 1971.

Nova York foi outra epifania para Amaral. Lá, ele se encontrava regularmente com Hélio Oiticica e frequentava os ateliês do colombiano Góngora, do argentino Paternostro e as festas em que os venezuelanos Jesús Soto e Cruz-Diez brilhavam, tocando violão. “Nos anos 1970, Nova York se consolidava no mercado internacional, tomando o lugar que fora de Paris antes da guerra”, lembra Maria Alice Milliet. Amaral, porém, estava de passagem e não era ingênuo. A curadora aponta a tela Boa Vizinhança) como exemplo de um comentário político sobre a exploração econômica dos EUA, representada na banana que faz a ligação entre as bandeiras americana e brasileira.

“Depois da série das Bananas, que terminou em 1975, optei pelo hiperrealismo, usando a fotografia como referência”. Foi nesse ano que ele pintou uma série de quatro telas presentes na exposição – intituladas Morte no Sábado e alusivas à morte do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), então diretor da TV Cultura, nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. “Voltei-me, então, para dentro e minha pintura ficou mais subjetiva, acredito”. O espectador tem até o dia 23 fevereiro para conferir.

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