Pinacoteca mostra coleção nordestina de Lina Bo Bardi

Uma arte feita de trapos, fiapos e cacos. Uma arte que preserva com teimosia impressionante a cultura pré-industrial do Nordeste brasileiro anterior (ou à margem) do impiedoso avanço do capitalismo industrial. Essa é a arte à qual a arquiteta modernista Lina Bo Bardi (1914-1992) se dedicou a recolher com uma atitude ao mesmo tempo crítica e afetiva e que pode ser vista na Pinacoteca do Estado."Se o economista e o sociólogo podem diagnosticar com desprendimento, o artista deve agir, além de ligado ao intelectual, como parte ligada ao povo ativo", afirma Lina no texto de abertura do livro Tempos de Grossura: O Design no Impasse, no qual faz uma análise apaixonada da criação popular, uma acusação (a palavra é sua) contra a preconceituosa atitude das elites, contra o esquecimento e a indiferença.Após ter definido, em 1980, como seria o livro, a própria Lina desistiu da empreitada por considerar que tudo "cairia no vazio". Felizmente, o Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi decidiu reeditá-lo e lançá-lo com uma exposição de peças pertencentes à coleção pessoal da arquiteta e que percorreu o México e a Itália (Roma e Milão).Só agora, graças ao instituto e ao diretor da Pinacoteca, Emanoel Araújo (responsável ele mesmo por uma série de mostras sobre a arte popular brasileira e que tem o projeto de realizar um museu dedicado ao tema), a mostra e o livro chegam a São Paulo, quem sabe ajudando a revelar essa cultura que muitos ignoram ou tentam esconder, como fizeram os militares ao proibir a realização da mostra Civilização do Nordeste em Roma, no ano de 1964. A mesma mostra havia inaugurado pouco tempo antes o Solar do Unhão, reformado e transformado em museu por Lina. Ela ficou pouco tempo à frente do museu, sendo também afastada pelo regime militar.Além dos textos de Lina, há no livro depoimentos de várias figuras nacionais preocupadas em investigar e preservar as raízes culturais nacionais, como Gláuber Rocha, Celso Furtado, Flávio Motta e Ariano Suassuna.As peças que poderão ser vistas na Pinacoteca são apenas as guardadas pela própria arquiteta, em sua coleção. Entre elas há trabalhos de extrema beleza, como o jogo do bicho pintado sobre placas de metal reaproveitadas, colchas bordadas com animais e um singelo rádio de barro com um passarinho pousado em cima. Lina Bo Bardi - De terça a domingo, das 10 às 18 horas. R$ 5,00 (5.ª, grátis). Pinacoteca do Estado. São Paulo, Praça da Luz, 2, tel. (11) 229-9844. Abertura sábado, às 11h.

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