Pinacoteca lança a Caixa Modernista

Anno I - numero I. Maio de 1928. Circulava a Revista de Antropofagia, com direção de António de Alcântara Machado e gerência de Raul Bopp. ?Até 1923 havia aliados que eram inimigos. Hoje há inimigos que são aliados. A diferença é enorme. Milagres do canibalismo?, escreve Alcântara Machado, num Abre-Alas (editorial?) que ficou infinitamente menos conhecido que o Manifesto Antropófago publicada na mesma edição da revista e que prega: ?Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Philosophicamente.?Um fac-símile desse número da revista (que informa estarem no prelo os livros Laranja da China, de Alcântara Machado, e Macunaíma, de Mário de Andrade) é uma das peças do ?museu portátil?, como definiu o organizador, o professor da Universidade de São Paulo Jorge Schwartz, que chegará às livrarias, com o nome de Caixa Modernista (Edusp/Editora da UFMG e Imprensa Oficial do Estado) na segunda-feira. O lançamento será neste sábado, às 11 horas, no pátio interno da Pinacoteca do Estado; o preço ainda não está definido, mas deve ficar em torno de R$ 150. Além da Revista de Antropofagia, outros 29 documentos completam o minimuseu. Uma das preciosidades anunciadas, o fac-símile da primeira edição de Paulicéia Desvairada (1922), de Mário de Andrade, não vai entrar na coleção, porque a editora Landmark decidiu suspender a comercialização ao descobrir que a Edusp (com a EdUFMG e a Imprensa Oficial) estava lançando a mesma edição fac-similar. "Venderam o mesmo produto duas vezes", disse fábio Cyrino, sócio da Landmark, referindo-se ao editor Pedro Paulo Moreira, da Villa Rica, de Belo Horizonte, que publica as obras do escritor, e a Carlos Augusto de Andrade Camargo, herdeiro de Mário.Apesar disso, a coleção contém raridades como Pau Brasil (1924), livro de poemas de Oswald de Andrade, as reproduções do programa, do catálogo e de uma folha datilografada, num papel timbrado do Automóvel Club de São Paulo, com a lista de eventos daqueles dias que se transformaram, em fevereiro de 1922, num marco da cultura brasileira, além do convite para a abertura e de folhas do catálogo da exposição de Tarsila do Amaral na Galerie Percier em Paris (1926).Para completar a coleção, a caixa traz cartões-postais que se valem de outras importantes obras do movimento modernista ? como pinturas de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro, uma tapeçaria de John Graz, capas de livros de Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cassiano Ricardo e Murilo Mendes, a capa de um manuscrito de Heitor Villa-Lobos (das Bachianas Brasileiras - N.º 1), uma escultura de Vitor Brecheret e fotos (da Casa Modernista, do grupo de 1922 e de uma visita do italiano Marinetti a uma favela, em 1926).A maioria dos documentos impressos é, com freqüência, utilizada para ilustrar obras que tratam do modernismo e de seus personagens. A boa novidade, além da versão fac-similar dos livros de Mário e Oswald, é a publicação do conjunto, o que permite uma visualização de um conjunto de obras produzidas muitas vezes, como definiu Alcântara Machado, durante a década de 1920, por inimigos, paradoxalmente, e aliados.Neste ?rabinho? de matéria, cabe ainda reproduzir, respeitando a ortografia da época, ?a nota insistente?, publicada na última página do primeiro número da Revista de Antropofagia, que fez questão de ?repetir o que ficou dito lá no princípio?:?? Ella está acima de quaesquer grupos ou tendencias;? Ella acceita todos os manifestos mas não bota manifesto;? Ella acceita todas as criticas mas não faz critica;? Ella é antropofaga como o avestruz é comilão;? Ella nada tem que ver com os pontos de vista de que por acaso seja vehiculo.A Revista de Antropofagia não tem orientação ou pensamento de especie alguma: só tem estomago.?

Agencia Estado,

21 de novembro de 2003 | 17h23

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