Pinacoteca homenageia Renée Lefèvre e Antonio Lizárraga

Nas décadas do início do século passado, era incomum uma mulher sair sozinha com seu cavalete por diversas cidades, atrás de paisagens e motivos para pinturas. Mas, mesmo assim, Renée Lefèvre (1905-1996) se enveredou por vários cantos do Brasil sozinha (ela não se casou) e com sua coragem admirável. Como afirma a historiadora Ruth Sprung Tarasantchi, foi por causa de seus trabalhos que se tornaram conhecidas igrejas, conventos e casarios barrocos do Nordeste e de Minas Gerais, além de portos e paisagens de outros lugares distantes. Também por meio de sua obra, principalmente, é possível hoje ter um relato belo e sutil de São Paulo (e até de uma São Paulo que não existe mais), cidade natal da artista e um de seus motivos favoritos. A pintora ganha agora uma devida homenagem com a exposição O Brasil de Renée Lefèvre, que pode ser vista na Pinacoteca do Estado, e com o livro Renée Lefèvre, de autoria do crítico de arte Enock Sacramento, lançado agora com a mostra - a publicação é edição comemorativa do centenário de nascimento da artista. A mostra, com curadoria de Sacramento e de Ruth Tarasantchi, reúne mais de 60 pinturas e desenhos realizados entre as décadas de 1930 e 1940. Como conta o crítico, Renée teve como ponto inicial de sua carreira ser aceita aos 23 anos como aluna do requisitado e exigente mestre Pedro Alexandrino, também responsável pela formação de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Aldo Bonadei, entre outros. Sob sua orientação, a artista "desenvolveu consideravelmente sua habilidade no trato do grafite e dos pincéis, revelando nítida tendência para o gênero da paisagem". No fim da década de 1920, ela foi a Paris aperfeiçoar sua formação e lá pintou ao ar livre a cena parisiense e de outras cidades pelas quais passou. Ao retornar ao Brasil, em 1932, continuou pintando "em contato direto com seus motivos, postura dos impressionistas franceses", afirma Sacramento. Muitos foram os temas de suas paisagens - e muitos os lugares retratados, desde vários Estados brasileiros até Paris, para onde retornou em 1947 por um período. Como define Sacramento, Renée criou um estilo pessoal. "De interesse especial é o cromatismo que imprime em suas telas - diáfano, leve, abeirando-se da pura cor das aquarelas ou dos velhos azulejos em sua transparência e imaterialidade", nas palavras de outro crítico, José Roberto Teixeira Leite. Naturezas-mortas e retratos (em menor proporção) também fizeram parte do repertório de Renée. Ao mesmo tempo, a Pinacoteca do Estado também apresenta a mostra Antonio Lizárraga - Deslocamentos Gráficos, com curadoria de Taisa Palhares e Thiago Honório (com colaboração de Sonia Salzstein). Nascido em Buenos Aires, mas radicado no Brasil desde a década de 1950, o artista sofreu em 1983 um acidente vascular-cerebral que o deixou quase totalmente imobilizado. Para continuar produzindo, teve de recorrer a um processo alternativo, a um "rico universo de mecanismos que ultrapassam a figura do ´artista-executante´", como já definiu Maria José Spiteri no livro Lizárraga: Quadrados em Quadrado - assistentes executam plasticamente sua obra. Na mostra, estão reunidas mais de 60 obras entre desenhos, pinturas, serigrafias, esculturas e ilustrações, além de documentário inédito sobre a Metrópole, de 1973, feita em parceria com a artista Gerty Saruê para a 12.ª Bienal de São Paulo. E ainda para mostrar que Lizárraga continua produzindo vivamente. O Estúdio Buck, na Vila Olímpia, inaugura na terça a exposição Geometria da Cor, com 19 trabalhos recentes e inéditos do artista, realizados nos últimos dois anos. Já no espaço octógono da Pinacoteca, o artista Caíto exibe conjunto de 48 esculturas. Renée Lefèvre, Antonio Lizárraga e Caíto. Pinacoteca do Estado. Praça da Luz, 2, 3229-9844. 10 h/18 h (fecha 2.ª). R$ 4 - grátis aos sábados. Até 28/5 (Renné); até 21/5 (Lizárraga); e até 14/5 (Caíto), 18 h.

Agencia Estado,

10 de abril de 2006 | 11h43

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.