Pinacoteca expõe obra do paulista Almeida Junior

Almeida Junior (1850-1899) é um dos raros artistas brasileiros do século 19 a ter conseguido ultrapassar a barreira de sua época e tornar-se tema relevante para todos que, em algum momento do século 20, procuraram contribuir de alguma forma para a história e o desenvolvimento da arte no Brasil. Seja alçando-o ao lugar de grande introdutor do modernismo no País, seja atribuindo-lhe um lugar menor, porém importante, no cenário de transição do academicismo local, o artista ituano é, sem dúvida nenhuma, estrela de maior grandeza da arte brasileira. Basta percorrer as salas da mostra que a Pinacoteca do Estado inaugura nesta quinta-feira, às 11 horas, para reconhecer aqui e ali obras de grande caráter simbólico e reconhecimento público.E, no entanto, esta é a primeira grande retrospectiva de sua obra a ser realizada desde 1950. Com toda a pompa característica do período, aqueles que emprestaram obras para a exposição de meio século atrás ganharam até mesmo medalhas de reconhecimento. E a data de nascimento do pintor (8 de maio) tornou-se oficialmente o Dia do Artista no País. Isso não quer dizer que a obra do artista tenha ficado reclusa às salas de estar das fazendas paulistas, até porque parte significativa da produção pertence a acervos museológicos e sempre esteve à vista nas exposições permanentes.Dentre esses acervos, destaca-se certamente o da Pinacoteca do Estado, que encerra as comemorações de seu centenário homenageando um dos artistas mais bem representados na instituição. Pertence ao museu parte significativa das obras, tanto em termos quantitativos (um terço do total) como qualitativos, já que são dele algumas das telas mais emblemáticas da mostra, dentre elas Caipira Picando Fumo e Cozinha Caipira. Em segundo lugar, vêm as contribuições bastante significativas do Museu Nacional de Belas Artes, guardião das telas premiadas nas Exposições de Belas Artes do período imperial ou republicano. Fechando o tripé, estão as coleções particulares que preservaram até hoje os trabalhos, sobretudo retratos, de formato bastante semelhantes e baseados muitas vezes em fotografias, feitos por Almeida Junior para sua principal clientela, a burguesia paulista. Além da mostra, também será organizado um ciclo de discussões sobre Almeida Junior e haverá o lançamento de um alentado catálogo.Fugindo das leituras mais comuns da produção do artista nascido em Itu - como a valorização de seu regionalismo rural ou ênfase em sua dramática e prematura morte, assassinado por um marido ciumento -, a curadoria procurou evidenciar, por meio de aproximações e contrastes, algumas características marcantes da pintura de Almeida Junior. Maria Cecília França Lourenço, uma das maiores conhecedoras da obra do artista e ex-diretora da Pinacoteca, evitou tanto da abordagem puramente temática quanto da ordenação cronológica, que tenderia a reforçar uma idéia de evolução positivista na obra de Almeida Junior.BlocosAs obras foram organizadas em torno de cinco grandes núcleos expositivos: o primeiro deles explicita um olhar inovador do pintor para figuras à margem da sociedade ilustre, como os velhos e as crianças; no segundo bloco há um recorte voltado para a paisagem, humana ou natural; no terceiro núcleo, intitulado Trabalhos em Contraste, estão as pinturas sobre o trabalho rural, mas também representações de outras profissões, inclusive as de caráter artístico (com destaque para a pequena tela O Estatuário, que representa o momento de realização de uma máscara mortuária e que está sendo doada à Pinacoteca); no quarto bloco estão seus ateliês e as imagens de uma vida antiburguesa. Há também um quinto conjunto de obras, isolado do restante da mostra, e por isso mesmo tem mérito especial. Em sala cedida pelo acervo permanente, no segundo andar do prédio, são mostrados diferentes diálogos com o artista. Desde cópias de suas obras feitas por alunos e companheiros, como Pedro Alexandrino e Oscar Pereira da Silva, até releituras contemporâneas, assinadas por artistas como León Ferrari, João Câmara ou Ranchinho. Além de inserir a obra num contexto mais amplo, esse deslocamento acaba servindo de convite para que o público dedique atenção ao acervo permanente do museu, que reserva boas surpresas, mas muitas vezes é esquecido pelos visitantes.Desse vasto panorama, idealizado por Maria Cecília e Ana Paula Nascimento, se destacam algumas questões que valem a pena sublinhar. Além do esforço em não criar um núcleo ?caipira? capaz de atrair todas as atenções - o que não impede o uso de recursos educacionais paralelos, como a exibição dos objetos retratados na Cozinha Caipira e em Amolação Interrompida -, a montagem busca explicitar alguns processos relativos à pintura de Almeida Junior.Podemos nos deparar com tratamentos absolutamente diferentes dentro do mesmo tema, ou aproximações formais de grande relevância em trabalhos aparentemente distintos como o retrato de Manuel Lopes de Oliveira (1891) e Caipira Picando Fumo (1893). Colocadas lado a lado, é possível identificar como obras aparentemente tão díspares têm tratamentos iguais, semelhanças impressionantes de ambientação, quadro e recorte. Outro exemplo de contraste e semelhança interessante se dá entre Puxão de Orelha e Recado Difícil.Também merece atenção a maneira como o artista trabalha a luz, e o cuidado com alguns detalhes aparentemente pequenos - como a delicadeza dos brincos, o uso do branco sobre o branco ou a forma dos dedos -, elementos que auxiliaram Maria Cecília na identificação feita no fim da década de 70 das obras verdadeiras do artista, já valorizado na época e muito falsificado. Só para se ter uma idéia, das mais de 800 obras vistas pela pesquisadora, apenas 3 centenas eram realmente de sua autoria.

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