Pinacoteca exibe tesouros cristãos do século 17

Tesouros de Etchmiadzin, exposição que a Pinacoteca do Estado inaugura hoje com a presença ilustre do recém-eleito patriarca supremo da Igreja Apostólica Armênia, Catholicós S.S. Karenin II, é mais do que a reunião de belíssimos objetos produzidos ao longo de 17 séculos neste país da Ásia Menor. Trata-se de uma oportunidade rara de entrar em contato com a história de uma civilização que pouco conhecemos, mas com a qual temos vários pontos de ligação. Mostra semelhante a essa já foi exibida em Viena, Moscou, Helsinque e Berlim em 2001, quanto foram celebrados os 1700 anos do Cristianismo. E a colônia armênia teve a idéia de remontá-la para celebrar a vinda do novo Catholicós à América Latina. Além da importante presença da colônia armênia no País, que se espalhou pelo mundo fugindo do genocídio perpetrado pelos turcos no início do século passado, a Armênia é uma espécie de berço da cristandade, tendo sido o primeiro país do mundo a tornar-se oficialmente cristão, ainda no século 3 depois de Cristo. As 74 peças trazidas para o Brasil incluem adornos de altar, vestimentas, cruzes, iluminuras, tapeçarias, cetros, etc, e pertencem ao complexo-sede da Igreja Apostólica daquele país, situada na cidade sagrada de Etchmiadzin e independente tanto do catolicismo romano como da ortodoxia cristã. Uma das peças que chama mais atenção é uma réplica, feita no século 17, da ponta da lança que feriu Jesus na cruz e que teria sido levada para a Armênia por São Judas Tadeu. O original é mantido fechado, sendo usado somente de 15 em 15 anos para misturar óleos bentos, usados nas cerimônias religiosas. Outro aspecto interessante é a utilização de textos sagrados em quase todas as peças, como testemunho da importância da escrita na tradição dessa cultura. O alfabeto armênio, inventado no ano 406, é composto por 36 letras extremamente gráficas, tornando sua utilização nos objetos mais um elemento de sofisticação visual. "Várias obras importantes da Grécia antiga nos chegaram via Armênia", lembra o diretor da Pinacoteca, Marcelo Araújo, lembrando que o alfabeto e a cultura religiosa - bem representados na mostra - são a grande marca cultural dessa civilização. Ambos os aspectos estão representados em manuscritos trazidos ao Brasil, com belíssimas iluminuras e ricas capas em ouro e prata, com pedras incrustadas, em técnica similar à usada nas cruzes e relicários. Chama atenção tanto a riqueza e a sofisticação dos trabalhos, como o forte cruzamento de referências culturais. Pela própria localização do país, elo de comunicação entre o Oriente e o Ocidente identifica-se aqui e ali uma grande influência das culturas persa, árabe, grega e russa (até 1991 a Armênia fazia parte da ex-URSS). "Não existe uma questão estética única", afirma Araújo. Dentre as várias tradições de artesania, ele chama atenção para a maestria no trabalho em metal, tradição longínqua que permanece viva nos dias de hoje.

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