Pinacoteca abriga a exposição 'Seis Séculos da Pintura Chinesa'

Instituição mostra 120 obras de arte da coleção do museu Cernuschi, um dos maiores acervos orientais da Europa

Maria Hirszman - ESPECIAL PARA O ESTADO,

27 de maio de 2013 | 15h21

Cobrindo um amplo período de tempo e uma ampla diversidade de temas e técnicas, a mostra Seis Séculos da Pintura Chinesa, em cartaz até 4 de agosto na Pinacoteca do Estado, tem como principal mérito introduzir o público a esse vasto e pouco conhecido universo, não por meio de um discurso pseudo-didático, mas da sedução do olhar.

São seis salas, ocupadas por 120 obras raras da coleção do Museu Cernuschi de Paris, uma das mais importantes instituições ocidentais dedicadas à arte oriental, dando ao visitante a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre a arte chinesa, sem ser forçado a interromper o percurso por longas explicações relativas à autoria, período ou técnica, e apreendendo num embate direto com as pinturas algumas das características definidoras dessa arte que privilegia noções como a de harmonia e continuidade.

As obras são articuladas de forma a sublinhar algumas questões centrais como o caráter simbólico desta pintura; a profunda interconexão entre representação visual, poética e caligráfica na arte chinesa; a importância da tradição e da repetição de modelos; a proximidade entre desenho e pintura; bem como o embate com o naturalismo e a relação crescente com a arte ocidental. Impõe-se desde logo na exposição uma certa desaceleração do tempo, uma preocupação em figurar elementos simbólicos da tradição cultural chinesa, como as montanhas e as árvores, bem como exercícios audaciosos e sutis de uso da cor.

As subdivisões correspondem a aspectos importantes da história da China, como fases correspondentes às Dinastias Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911); a importância da interação com a arte do Ocidente e do Japão e a presença marcante da paisagem entre os temas de predileção da pintura chinesa. No entanto, a história do país aparece apenas como uma espécie de pano de fundo. Tampouco é dada ênfase à questão da autoria, sobretudo porque ao público brasileiro, pouco familiarizado com essa cultura, é tarefa difícil tentar situar-se em meio às dezenas de artistas representados. Dificuldade que se verifica até mesmo no caso de mestres como Kang Youwei, importante figura no processo de renovação da arte chinesa no início do século 20, ou de Zhan Daqian, pintor de grande talento, que promoveu a justaposição de diferentes estilos considerados antitéticos, incorporou a própria experiência nos trabalhos, mesclando tradição e observação pessoal, e que além de tudo tem como atrativo especial o fato de ter vivido no Brasil por cerca de 20 anos, antes de mudar-se para os Estados Unidos.

É de sua autoria um dos destaques da mostra, a representação do Monte Emei, local sagrado para os budistas, pintada por ele em 1955 já no exílio. A imagem, escolhida também para a capa do catálogo da exposição - que pela primeira vez na história da Pinacoteca tem versão digital, disponível para download gratuito no site do museu - funciona como uma espécie de ponto fulcral da mostra e condensa aspectos que reverberam em toda a seleção, com destaque para o tratamento cromático (obtendo a fusão de diferentes planos por meio do uso do verde, que ecoa nas paredes da sala); o caráter simbólico da montanha como símbolo de longevidade e espiritualidade; bem como o uso de diferentes pontos de vista numa mesma paisagem.

Num elucidativo texto sobre as características centrais da pintura chinesa publicado no catálogo da mostra, o pesquisador francês Cédric Laurent destaca esse aspecto, mostrando como - ao contrário da arte ocidental, que normalmente adota uma perspectiva única, orientando o olhar do espectador para uma mesma direção e foco - a pintura chinesa se constrói a partir da "sucessão de pontos de vista ritmados por elementos de paisagem e arquitetura". Não se trata portanto da ideia renascentista da pintura como uma janela que se abre, mas de um percurso que se propõe para o olhar como uma espécie de "viagem imóvel". Percurso esse que se relaciona intimamente com o formato de rolo normalmente adotado por essas pinturas, como se pode ver por exemplo no fascinante A História do Chá, grande passeio horizontal de quase quatro metros de comprimento presente na mostra.

Há na exposição diversos outros destaques, que fazem parte do grupo inicial de aquisições feitas pelo economista italiano Henri Cernuschi entre 1871 e 1873 em viagem ao Oriente e que constitui o núcleo inaugural do museu (com grande predominância de bronzes mas, como diz o curador Éric Lefebvre, também com um "conjunto modesto mas coerente de pinturas" que privilegiava a figura humana) ou então foram sendo absorvidos posteriormente pela instituição. Dentre eles é possível mencionar a composição Academia de Hanlin, realizada no século 18 por seis autores, adquirida em 1975 pelo Cernuschi. Trata-se de uma obra monumental, que representa a inauguração dessa importante instituição (destruída durante a guerra dos Boxers) e que por si só já vale uma visita à mostra.

Ou ainda as diversas representações de animais e flores, de grande delicadeza e requinte, como a surpreendente Pintura dos Mil Outonos, feita por Gao Qipei entre 1700 e 1730, usando as mãos ao invés de pincéis - gênero que em certo momento despertou grande interesse -, ou O Demônio Búfalo e o Espírito Serpente, pintada por Xu Beihong em 1943, numa possível alusão à guerra, comparando a China ao Búfalo que, amarrado, se vê ameaçado pela serpente, que simbolizaria o Japão atacando o país.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.