Pina Bausch põe SP na sua rota revolucionária

Ela nasceu em 1940 na Alemanha, terra em que surgiram algumas das mais radicais revoluções artísticas do século 20. No território da dança, que veio a explorar quando adulta, os alemães haviam abolido desde o começo do século as sapatilhas, tutus, pas-de-deux e arabesques. Tudo em nome de uma arte nova, provocadora, que levava para o palco angústias, dores, impotências e raivas que passavam a quilômetros das harmonias barrocas do balé clássico. As criações dos pioneiros expressionistas, como Rudolf Laban, Mary Wigman e Kurt Joos, pareciam levar a dança até seus limites. Mas a coreógrafa Pina Bausch, que pela terceira vez traz seu Tanztheater Wuppertal a São Paulo, onde apresenta no Teatro Alfa, de quinta a domingo, a obra Masurca Fogo, estreada em 1999, provou que as fronteiras da dança ainda não haviam se expandido até a ruptura. Ao inventar nos anos 70 o tanztheater - dança-teatro -, ela estabeleceu novos desafios e riscos para bailarinos e coreógrafos. O Brasil no mapa - Como vem fazendo desde 1985 em vários países, desta vez Bausch não vai ficar no Brasil apenas durante as apresentações do Tanztheater Wuppertal. A artista, que em Masurca Fogo mostra o resultado de um projeto de residência de dois meses em Lisboa, permanecerá no País. Pina Baush, acompanhada de uns poucos assistentes, vai andar por São Paulo, seguindo depois para o Pantanal, Manaus e Fortaleza. Terminará sua pesquisa no Rio, onde passará o réveillon. O Brasil irá integrar-se assim à peculiar geografia da artista. Esse mapeamento do mundo, resultado das residências que Bausch vem empreendendo, resultou em produções articuladas na Itália (Palermo, Palermo e O Dido), Espanha (Noites de Madri), Estados Unidos (Only You e Nur Du) e Hong Kong (O Limpador de Vidraças), entre outras. Pina Bausch é natural de Solingen. Na cidade industrial da Westphalia, na parte oriental da Alemanha, célebre por suas fábricas de aço, Philippine (nome de batismo da artista) cresceu gravitando ao redor do café de que seus pais eram proprietários. Aos 15 anos, mudou-se para Essen. Deixou de lado o insólito nome Philippine por sua abreviatura, Pina. Inscreveu-se na escola Folkwang e foi estudar dança com Kurt Joos (1901-1971), o grande mestre expressionista. Em 1959, sem saber uma palavra de inglês, mudou-se para os EUA. Em Nova York, trabalhou em trupes de vários coreógrafos contemporâneos antes de ser convidada pelo inglês Antony Tudor para integrar o Metropolitan Opera Ballet. Em 1962, tomou outra decisão. Em vez de fazer carreira como solista no Metropolitan, decidiu voltar para a Alemanha. Retornou a Essen e foi trabalhar com seu mestre, Joos. Ali, seu impulso para a criação começou a tomar forma. Em 73, foi convidada a dirigir o balé da Ópera de Wuppertal. Formou aí o núcleo de sua companhia, que surgiu um ano depois. Suas primeiras coreografias, elaboradas a partir de obras de Gluck, Stravinski e Weill, foram hostilizadas pela platéia da cidade, que não se mostrava disposta a aceitar coreografias agressivas, despidas de glamour e magia. O sucesso veio apenas depois que o grupo passou a excursionar. A aclamação em Londres e Paris levou os cidadãos de Wuppertal a descobrir a dimensão de Pina Bausch. Hoje o Tanztheater, que completou 26 anos em outubro, é uma das glórias da cidade. Os pacatos burgueses de Wuppertal colocam Pina no mesmo nível de outras ilustres figuras locais: Engels, o teórico do Partido Comunista, e Bayer, o inventor da aspirina. Para realizar Masurca Fogo, Bausch instalou-se em Lisboa durante dois meses, em 1997. Em abril de 1999, em Wuppertal, estreou o trabalho que os paulistanos verão a partir de quinta-feira, com duas brasileiras no elenco, Ruth Amarante e Regina Advento. Embora não haja imagem explícita de Lisboa no espetáculo, algo dos "ares" da cidade está presentes na montagem. No clima poético, lírico e festivo da montagem ela capturou aspectos do temperamento lisboeta. Mas foi além. Visitou o arquipélago de Cabo Verde e na ilha Fogo, cujas rochas vulcânicas inspiraram o cenário de Peter Pabst, descobriu uma dança local, a masurca, talvez originária da mazurca européia, que se originou na Polônia. Da junção do nome da dança com o nome da ilha surgiu o título do balé. Como sempre ocorre nas peças de Pina Bausch, Masurca Fogo não conta uma história linear. Fala de amor e sedução, e a maçã é um elemento presente em diversas cenas. Há também espaço para o insólito. Um elefante marinho atravessa o palco a certa altura. E o elenco masculino fica encarregado de recriar o oceano no palco. A trilha sonora é composta por fados cantados por Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro, música de Cabo Verde, tangos argentinos executados por Gidon Kremer, composições dos brasileiros Radamés Gnatalli e Baden Powell, canções de k.d. lang, e o jazz de Duke Ellington. Masurca Fogo deixa os paulistanos em pé de igualdade com os cariocas no que se refere ao Tanztheater Wuppertal. O grupo visitou as duas cidades em 1980, na sua primeira viagem, quando trouxe o esplêndido Café Muller, e na segunda, em 1990, mostrou Ouviu-se um Grito na Montanha. Em 1997 veio de novo, mas apresentou-se apenas no Rio, onde dançou Ifigênia em Tauris e Cravos. Desta vez o privilégio é de SP. Masurca Fogo não será vista em outra cidade brasileira. Masurca Fogo - Teatro Alfa (R. Bento Branco de Andrade Fº, 722, tel.: 5693-4040). De quinta a sábado, 21 h. Domingo, 18 h. De R$ 20 a R$ 120.

Agencia Estado,

10 de dezembro de 2000 | 12h55

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