Piglia de volta ao policial

Com Blanco Nocturno, argentino retorna ao gênero em que brilhou com Dinheiro Queimado

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

Ricardo Piglia está de volta ao seu território predileto, o do crime. Não, o escritor argentino, que participa da 6.ª Fliporto (Festa Literária de Pernambuco), não cometeu nenhum delito. Ele apenas acaba de publicar no exterior um livro policial, Blanco Nocturno (Editorial Anagrama), prestando uma homenagem aos escritores do gênero que mais admira e que editou aos 28 anos, ao assumir a direção da editora Tiempo Contemporáneo.

Há 42 anos, Piglia organizou uma coleção de romances noir, divulgando na Argentina autores como Raymond Chandler, Dashiell Hammet e Horace McCoy. Sobre eles e Blanco Nocturno, Piglia conversou com o Estado, explicando que sua atração pela trama policialesca não é apenas um pretexto para explorar o gênero sob uma perspectiva social, como nos romances de Chandler, mas uma maneira de aproveitar o repertório de histórias familiares contadas pelos tios. "Há sempre um desgarrado, um tipo esquisito ou alguém com problemas de alcoolismo em todas as famílias, e a do livro não é muito diferente."

Bem, a família Belladona, que domina um povoado a três centenas de quilômetros de Buenos Aires, não só é parecida com todas as outras como tem tipos ainda mais bizarros. O patriarca é um recluso com estranhas manias, pai de duas gêmeas liberadas que vão para a cama com um forasteiro porto-riquenho, visto com reservas pela população da cidade. Esse ménage à trois, claro, não termina bem. Já no começo do romance, o comissário Croce investiga o crime que levou o boa-vida para o outro lado do paraíso, escancarando o preconceito dos provincianos contra o tipo mestiço, que ameaça com sua presença o prestígio do Clube Social do povoado e arrasa ainda mais com a precária moral das irmãs Belladona.

O pai das garotas é vagamente inspirado na figura de um parente esquisitão de Piglia. "Penso num tio que desaparecia de vez em quando e depois nos recebia em casa com uma toalha no rosto", conta o escritor. Já o comissário Croce não é inspirado num modelo real, mas tem algo dos detetives prestidigitadores de Chandler. Ele parece ver coisas que os outros mortais não veem, como um franciscano piromaníaco que botou fogo em chácaras ou um homem que estuprou uma garota numa sessão de Deus lhe Pague num cinema de província.

São tipos assim que transformam Blanco Nocturno num romance delicioso de ler. Os brasileiros, no entanto, vão ter de esperar quase nove meses para ver nascer a tradução, que chega ao mercado pela Companhia das Letras em junho ou julho de 2011.

O porto-riquenho do romance, Tony Durán, aventureiro e jogador profissional, também conserva traços de um amigo de Piglia que mora em NY, mas o argentino nega ter usado sua nacionalidade com alegoria de uma falsa tolerância que os americanos demonstram com os latinos. "Nos povoados ao sul da província de Buenos Aires, que serviram de assentamento das tropas na guerras contra os índios, havia negros, que desapareceram misteriosamente", comenta Piglia, referindo-se à resistência do argentino à mestiçagem. As gêmeas Belladona, cuja paridade simétrica chega a incomodar, têm, portanto, algo a ver com as gêmeas de Chandler, dois lados da mesma moeda, usadas aqui não como representações alegóricas, garante o escritor. "Elas são só mulheres ativas, contemporâneas."

Blogs. Piglia optou pela trama romanesca na contracorrente da literatura metaficcional (a autoficção) que está na moda, em que o protagonista traz assumidamente traços do autor. Ele considera o novo gênero como produto da era dos blogs e da literatura internética, que, segundo ele, devem anunciar o advento de um outro tipo de narrativa não ligado à tradição. "Atualmente me dedico a escrever contos justamente com as histórias familiares que ouvimos com frequência sobre tias solteironas, parentes alcoólicos ou suicidas." Seu amigo Bolaño, que também não desprezava esses tipos, conquistou os EUA com essas narrativas familiares.

"Pode parecer, de fato, estranho o sucesso americano de Bolaño, mas não se considerarmos sua filiação à corrente beat, o que explica a razão de atrair tantos jovens", analisa Piglia. "Bolaño tinha o ímpeto de buscar, de sair em busca de respostas, como os escritores da beat generation."

Vivendo nos EUA desde 1997, onde dá aulas na Universidade de Princeton, Piglia aposta que a próxima atração americana atende pelo nome de Machado de Assis. "Ele também anda muito valorizado entre americanos, que redescobrem sua obra". Não que os clássicos dominem o panorama. "Há bons escritores entre contemporâneos e eu destacaria dois deles, o brasileiro Nuno Ramos e o mexicano Mario Bellatin, que trabalham em outro território literário, povoado não só com palavras, mas imagens."

Contaminação. Essa contaminação da literatura pelas artes visuais, conclui Piglia, é altamente saudável, identificando também entre jovens escritores uma tentativa de diálogo com a sintaxe cinematográfica.

Roteirista com obras adaptadas para o cinema (entre elas Dinheiro Queimado), Piglia anda frustrado com o meio. Escreveu o roteiro de O Impostor com María Luisa Bemberg, baseado num livro de Silvana Ocampo, mas a diretora Bemberg morreu (em 1995) e ele não concordou com os substitutos sugeridos pelos produtores. O último roteiro escrito por ele é o do filme La Sonambula (1998), do diretor Fernando Spiner. Ele anda entusiasmado é com o mundo da ópera. Após a bem-sucedida parceria com o compositor argentino Gerardo Gandini (a adaptação de La Ciudad Ausente, baseada num livro seu), ele se prepara para escrever nova ópera com o ex-pianista de Astor Piazzolla, desta vez sobre os subversivos "postangos" de Gandini.

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