Pierre Verger, no centro do MAM

Para marcar os 60 anos da chegada do francês ao País, o museu expõe 290 imagens realizadas pelo fotógrafo em sua primeira década como brasileiro Mesmo "cidadão livre do mundo", o francês Pierre Verger (1902-1996) escolheu a Bahia como morada. Há 60 anos ele chegou ao Brasil e mais do que apenas pisar em solo brasileiro e aqui habitar, ele resolveu debruçar-se sobre nosso País, sobre uma cultura particular de raízes diversas (principalmente a africana). Com uma Rolleiflex, desde a década de 1940, realizou aqui belas imagens em preto-e-branco que até hoje nos encantam - e são tantos milhares de negativos que há ainda fotografias inéditas. Tanto que agora, em mais uma efeméride - sua definitiva chegada ao Brasil -, a mostra a ser inaugurada hoje no Museu de Arte Moderna de São Paulo tem como mais um chamativo reunir grande número de imagens nunca antes expostas ao público. Pierre Fatumbi Verger - em 1953 ele adotou o nome Fatumbi, "nascido de novo graças ao Ifá", tamanho seu interesse pela religiosidade africana, pelo candomblé - foi mais que fotógrafo (trabalhou para agências e jornais): é considerado historiador e etnógrafo, deixando publicados importantes estudos sobre a cultura afro-brasileira, como Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Baía de Todos os Santos e Notícias da Bahia - 1850. Mas a mostra O Brasil de Pierre Verger, com itinerância prevista para os Museus de Arte Moderna do Rio e da Bahia, apresenta o que poderia ser chamado de seus primeiros olhares sobre o País - não somente sobre a Bahia, mas registros de passagens pelo Rio, São Paulo, Pernambuco, Maranhão e Pará. São 290 imagens feitas em sua primeira década no País, entre 1946 e 1958: "Um período de deslumbramento", como define Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger. Em 1988, Verger transformou sua casa vermelha, na Ladeira da Vila América, em Salvador, em sede da fundação que leva o seu nome. Não é uma casa grande, é simples como era seu proprietário. Mas lá está abrigado todo o seu acervo: 62 mil negativos, grandes quantidades de livros, documentos e sua coleção de objetos afro-brasileiros. Como conta Gilberto Sá, Verger convidou amigos ilustres, entre eles o artista Carybé, o escritor Jorge Amado e a arquiteta Lina Bo Bardi, para integrarem o primeiro conselho da fundação. Agora, depois da morte de Verger, a fundação continua a divulgar e manter sua obra. O Brasil de Pierre VergerCom curadoria de Alex Baradel, um dos responsáveis pelo acervo fotográfico em poder da Fundação Pierre Verger, a exposição ocupa toda a Grande Sala do MAM. É formada pelos núcleos Manifestações Populares (Cavalo-Marinho, Carnaval dos Travestidos, Circo Nerino, Festa dos Navegantes e Frevo); História Social (Canudos e Peregrinos de Bom Jesus da Lapa); Mestre da Arte (Rodolfo Cavalcanti e Cuíca de Santo Amaro, Mestre Vitalino, Pancetti, Calazans Neto, Jenner Augusto); Vida Urbana; Cotidiano e Trabalho; e os Cultos Afro-Brasileiros, mostrando a abrangência do olhar de Verger. Para o catálogo, o curador convidou jornalistas, historiadores, escritores, antropólogos e artistas a analisarem cada um dos temas. No espaço expositivo ainda será exibido um filme sobre o trabalho do fotógrafo. Além de deslumbramento, o trabalho de Verger foi impulsionado por um certo "inconformismo", como fala Baradel. Nas fotografias está registrada uma época, mas é possível perceber nelas uma "atualidade impressionante", ou seja, "um atraso semelhante em pobreza e em desigualdade", como afirma o curador em texto assinado em parceria com Tasso Franco. As velas das embarcações transformam-se em algo idílico por meio do olhar do fotógrafo; as imagens de arquitetura são belas também, mas certamente a força mesmo do trabalho está nos retratos, o ser humano imortalizado pela Rolleiflex. Verger ia "de encontro ao outro", diz o curador, e, era essa sua atitude.

Agencia Estado,

15 de fevereiro de 2006 | 14h31

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