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Piedosos e mendazes

“Não há nada mais forte do que o cheiro de mendacidade.”  

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

28 de setembro de 2015 | 02h00

(Big Daddy, em ‘Gata em Teto de Zinco Quente’, de Tennessee Williams)

Há uma concentração extraordinária de poder na ilha de Manhattan esta semana. Os 70 anos da ONU são comemorados com uma ambiciosa agenda de metas de desenvolvimento sustentável a serem cumpridas até 2030. A cidade é o cobiçado palco para governantes encherem o salão de 1.750 metros quadrados da Assembleia Geral com o odor detectado pelo patriarca do clássico da dramaturgia americana.

Comecemos com a própria agenda de dezessete metas. Para cumprir algumas metas econômicas, é preciso descumprir as ambientais. Mendacidades sobre a Síria, a Ucrânia, a miséria na Índia, a repressão na China e a espionagem cibernética, entre tantas outras, serão proferidas por Barack Obama, Xi Jinping, Narendra Modi, Vladimir Putin, François Hollande, David Cameron e, na abertura da sessão, Dilma Rousseff. Todos vão dizer platitudes e inverdades que fariam o sangue de Big Daddy ferver.

Mendacidade, que tem origem no latim e quer dizer mentira, caiu em desuso no português, mas é o poderoso refrão da peça de Williams em que Big Daddy, morrendo de câncer, explode contra a hipocrisia piedosa que o cerca.

Mesmo os mais crédulos comentaristas na mídia americana se surpreenderam com a mobilização em torno da visita do Papa Francisco. Uma recepção calorosa que incluiu casais gays, divorciados, mulheres que fizeram abortos, ateus, agnósticos, grupos que não se submetem a restrições da Igreja Católica. Arrisco dizer que o subterrâneo da cidade, onde picuinhas políticas e interesses econômicos adiaram por anos o tributo às vítimas do 11 de Setembro, só adquiriu o peso espiritual desejado com a demonstração de ecumenismo liderada por Francisco na cerimônia de quinta-feira passada.

Embora as vozes crassas do extremismo de direita tenham continuado a tratar Francisco como um Che Guevara de batina branca, elas foram abafadas pelo clamor por um bem-estar cada vez mais fora de alcance. A crise de liderança política legítima, com sua aliada, a explosão de falsidade populista, faz que uma figura de autoridade subitamente sincera como Francisco ocupe um grande vácuo.

Se soa sacrilégio citar Donald Trump na mesma frase com o Papa, há que considerar onde eles se encontram na imaginação pública. Ambos são percebidos como homens que contrariam interesses e dizem o que pensam. A popularidade do lamentável Donald Trump não pode ser dissociada do fato de que, mesmo quando se contradiz ou mente, ele não se submete ao pasteurizado discurso marqueteiro que o público se acostumou a esperar dos políticos.

A popularidade de um candidato associado ao socialismo como o senador Bernie Sanders, impensável há vinte anos, é explicada em parte pela própria figura do nova-iorquino que fez carreira no idílico estado de Vermont: ele é um José Mujica da política americana, alguém que não anda de jatinho nem se locupleta com empresários e interesses escusos, como fazem os hipócritas que posam ao lado de Mujica.

A emergência de Sanders amplifica a crise na candidatura de Hillary Clinton. É resultado da fadiga com a percepção da falta de autenticidade, embora a mulher tenha mais poder intelectual e domínio de políticas num dedo mindinho do que todo o brancaleônico campo de candidatos republicanos.

Vivemos um momento em que Marta Suplicy celebra sua entrada no PMDB como um gesto de combate à corrupção e não estou descrevendo um sketch do Porta dos Fundos. Um momento em que contrição é Lula se queixar com um grupo de religiosos que Dilma mentiu demais para se reeleger. Se mentisse menos, recitando a mendacidade de João Santana, encontraria salvação? Como desprezam o olfato do eleitor.

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