Piccolo de Milão traz "Arlequim" ao Brasil

Uma exposição de 12 figurinos dos principais personagens, desde ontem, no Salão Assíryus do Theatro Municipal do Rio, antecipa as duas apresentações do espetáculo Arlequim, Servidor de Dois Patrões, de CarloGoldoni, que o Piccolo Teatro de Milão faz no Rio no fim desemana. A montagem, com 19 atores e estrelada por FerruccioSoleri, é a última versão do clássico do teatro italiano, criadaem 1997, pouco antes da morte do fundador do Piccolo, GiorgioStrehler. É a terceira vez que a companhia vem ao Brasil, mas daanterior, em 1989, esteve só em São Paulo, onde volta a seapresentar nos dias 13 e 14, no Teatro Alfa.Arlequim é um dos personagens mais populares do teatromundial e sua história é recontada em sucessivas montagens emdiversos países. No Brasil, não foi diferente e, ele tambéminfluenciou dramaturgos importantes como Ariano Suassuna, quefez de João Grilo, do Auto da Compadecida, parente próximodo anti-herói italiano. Sua origem remonta à commedia dell´arterenascentista e Carlo Goldoni criou sua versão em 1746, mantendoa fórmula original, com espaço para a improvisação dos atores. Ahistória é uma banal comédia de erros, com desencontros,romances e identidades trocadas, em que o personagem-título seaproveita das confusões, enquanto critica e comenta os costumesda aristocracia.Ferruccio Solari, que vive o Arlequim desde 1963, quandosubstituiu o intérprete original, Mario Moretti, explicou queesta montagem se diferencia de outras por misturar a realidadedos atores com as tramas do personagem. "Uma trupe encena oespetáculo de Goldoni no centro do palco e, ao redor,representamos a vida dos comediantes. É teatro dentro doteatro", disse ele na semana passada por telefone, ainda emMilão. "Há muita improvisação com a platéia e, mesmo falandogírias antigas e dialeto italiano, difíceis até para o públicode Milão, nunca houve problemas de compreensão, seja no Japão,Coréia ou Rússia e mesmo no Brasil, onde estive há cerca de 20anos."O Piccolo Teatro de Milão foi criado em 1947, porGiorgio Strehler e Paolo Grassi, como reação ao longo tempo emque as artes italianas passaram engessadas pelo fascismo. Oobjetivo era apresentar espetáculos populares de alto nível, emque o desempenho do grupo se sobrepunha à performanceindividual. Era o que Strehler chamava de teatro necessário,politizado, em que grandes textos da dramaturgia universal semisturavam com os clássicos italianos. Arlequim foi a primeiramontagem, seguida de textos de Gorki, Brecht (que chegou aorientar o Piccolo) e Shakespeare. Tornou-se o carro-chefe dogrupo, mas passou por dez adaptações até chegar à atual."Eu mesmo mudei muito nos 38 anos que vivo essepersonagem. Era muito jovem quando comecei e não tão bomcomediante. Naturalmente, com a experiência, aprendi a fazermelhor meu Arlequim, com acrobacias, que não existiaminicialmente", comentou Solari, explicando que o espetáculotambém se transformou com o tempo. "Começamos só com o texto deGoldoni e fomos incluindo dados sobre a vida dos comediantes,coisas que o público desconhece. O ator tira e põe sua máscarapara ser ele mesmo ou o personagem. Também mudamos a cenografia,que hoje é praticamente inexistente. Pode-se dizer que a peçaocorre no ar, não há mobília em cena, só o comediante com suacapacidade de representar."Em sua passagem pelo Rio, Solari fará workshops comatores brasileiros, que ele prefere chamar de encontros, porque,modestamente, diz que tem pouco a ensinar a seus colegas deprofissão. "Cada reunião dessas é diferente da outra porquedepende do que os atores preferem me ver representando", contouele. "Geralmente, eles querem aprender a fazer rir, pois o risoé muito importante hoje em dia, com todos esses problemas."Mesmo sem querer dar receita de sucesso, Solari afirmaque apresentar-se para grupos restritos ou em teatro grandescomo o Municipal do Rio e o Alfa, de São Paulo, com mais de 2mil lugares, não muda essencialmente o espetáculo. Tampouco hádiferença entre platéias da Europa, EUA ou Brasil. "Ointeressante é que o público começa sem entender nada e, derepente, compreende tudo. É bom quando as pessoas já conhecem ahistória, sabem o que se passará no palco, mas quando não épossível, o público acompanha da mesma maneira."

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