Picasso o gênio e suas surpresas

O Metropolitan de Nova York expõe quase todo seu acervo do artista - cerca de 100 peças - e revela em vídeos descobertas feitas após exames minuciosos

Tonica Chagas, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2010 | 00h00

NOVA YORK - O artista do século 20 mais discutido, criador de produção superabundante e de algumas das obras mais caras do mundo, Picasso (1881-1973) também é o artista mais exibido do planeta. Este ano há pelo menos 30 grandes mostras dele, várias concomitantes, em cidades como Amsterdã, Atenas, Berna, Istambul, Londres, Moscou, Taipei e Viena. Sem falar nas que estão pela Espanha, onde nasceu, e França, onde passou quase toda a vida. Nova York tem duas: Picasso in The Metropolitan Museum of Art, aberta até 1.º de agosto, e Picasso: Themes and Variations, em exibição no MoMA até 6 de setembro. Com quase 300 peças, a mostra no Met focaliza só obras do acervo do museu, que está exibindo de uma só vez todos os seus Picassos. 

 

O ator. Sob a figura rosa havia uma composição de paisagem

Picasso in The Metropolitan toma nove galerias e faz um panorama da carreira e dos estilos do artista que, embora seja um dos mais estudados, ainda causa surpresas. Em exames feitos nas telas da coleção permanente, o Met fez várias descobertas, reveladas em vídeos na mostra. E, entre várias obras célebres exibidas antes, o museu incluiu La Douleur (A Dor), com cena erótica criada em 1902 ou 1903, nunca saído do depósito desde que doado ao museu em 1982.

 

Havia dúvidas sobre a autenticidade da obra mas, além da confirmação de ser um Picasso verdadeiro, os pesquisadores traçaram toda a história de propriedade dele, desde 1912, quando foi vendido pelo alfaiate Benet Soler, que fazia roupas para o pintor em Barcelona. Pode ser que Picasso, para manter a elegância mesmo sem dinheiro, tenha feito escambo entre o quadro e um par de calças ou um terno.

 

O suicídio do amigo Carles Casagemas teria originado o melancólico Período Azul de Picasso, lembrado na segunda galeria. Esta começa com dez caricaturas de 1900 de amigos que frequentavam com ele o café El Quatre Gats, em Barcelona (onde, naquele ano, expôs 150 desenhos). Os desenhos seguem o estilo na época conhecido como modernista e são assinados por P. Ruiz Picasso.

 

No fim de 1901, nota-se que as cores do período dos cafés dão lugar a uma palheta de azuis e ocres, como em O Desjejum do Cego (1903). Sob essa figura, outra descoberta: o homem foi pintado em cima da composição de uma mulher, da qual havia fotos, mas não se sabia onde estava até os exames feitos pelo museu.

Em 1904, Picasso fixou-se em Paris e conheceu a modelo Fernande Olivier, sua companheira até 1913, vivendo com ele os anos de pobreza do Período Rosa e do início cubista. Na primeira fase, as figuras dilapidadas e azuladas dão lugar a saltimbancos ou artistas de rua, seus temas básicos nos dois primeiros anos. Aponta-se como marco inaugural do Período Rosa O Ator (1905), que em janeiro, sofreu um rombo na parte direita inferior quando uma visitante do museu caiu sobre ele.

Restaurado e sem marcas visíveis, ele esconde a dureza financeira do jovem espanhol tentando se estabelecer como pintor em Paris. Picasso usava telas baratas e muitas vezes, reaproveitava as que ganhava de outros pintores. Os exames do Met mostram que, sob a figura esguia e rósea, havia uma composição horizontal de paisagem com uma figura humana. Picasso inverteu a posição da tela e expungiu a imagem original com grandes pinceladas de azul, cinza e vermelho. O período que começa com O Ator termina com a primeira pintura dele a entrar para a coleção do museu, o retrato da escritora Gertrude Stein, pintado em 1906 e doado ao Met pela retratada, em 1946.

Na quarta galeria, a jornada de Picasso vai de 1906 a 1915, anos em que ele e o amigo Georges Braque inventaram o cubismo e mudaram o curso da arte do século 20. No centro está a escultura de bronze Cabeça de Mulher (1909), que teve Fernande como modelo, é considerada a primeira escultura cubista e ponto-chave na formulação da linguagem pictórica do cubismo. Na época em que foi produzida, ela era chamada de "a cabeça quebrada", por causa dos ângulos que a formam.

As duas décadas seguintes da carreira se desdobram na quinta galeria, que começa com trabalhos criados a partir do fim da 1.ª Guerra. Surgem crianças nos quadros a partir do nascimento de seu primeiro filho, Paulo. A desintegração do casamento com a bailarina Olga Kokhlova é óbvia nos retratos em que a mostra como figura surrealista e castradora. Depois entram em cena as amantes Marie-Thérèse Walter e a fotógrafa Dora Maar, no fim dso anos 30. Da fase com Marie-Thérèse, o Met exibe A Sonhadora (1932), da mesma leva do valiosíssimo Nu, Folhas Verdes e Busto - ambos da série de grandes retratos feitos para a primeira retrospectiva do pintor em Paris, em junho de 32.

A coleção do Met, formada quase toda por doações, é menos favorecida em pinturas e desenhos produzidos por Picasso após a 2ª Guerra, mas é rica em trabalhos gráficos, principalmente em impressões sobre linóleo, mídia para a qual desenvolveu novas técnicas. A última galeria traz 30 impressões da Suíte 347, série de 347 gravuras feitas por Picasso aos 87 anos, que definem a produção dele: abundante e genial até o fim.

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