Piazzolla corre nas veias

Belgrano é um bairro residencial da zona norte de Buenos Aires, com ruas elegantes, de casas vastas e senhoriais. Coghlan é uma espécie de enclave especial dentro de Belgrano. Ali, numa rua sossegada e com árvores, um músico ocupa os dois últimos andares de um apartamento de fundos, amplo e luminoso. No terraço da cobertura há um estúdio dotado de total isolamento acústico. O morador tem 38 anos, é baterista e estuda horas e horas por dia. Com ele vivem a mulher, a escultora Soledad Petrelli, e os três filhos: Violeta, de 13 anos (do primeiro casamento dela), Mora, de 4 anos, e Lorenzo, de 5 meses.

Eric Nepomuceno, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Filho e neto de músicos, ele traz semelhanças com pai e avô. Com o pai, costumava, desde jovem, caçar tubarões no litoral sul da Argentina - exatamente como o pai, quando jovem, costumava fazer com o avô. Pai e filho têm o mesmo nome: Daniel. E os dois levam o mesmo sobrenome, o de um dos maiores gênios da música contemporânea de seu país e dos mais respeitados no mundo: os dois são Piazzolla.

Do avô Astor, o Daniel baterista traz lembranças cálidas e várias características. Uma delas é sua devoção absoluta e radical à música, com um grau de exigência consigo mesmo que chega a extremos. E também a paixão pelo bife à milanesa do Albamonte, restaurante no bairro de Chacarita, favorito dos dois. "Fininho, douradinho, com batatas fritas", adverte Daniel. Admite duas outras paixões: as empanadas cordobesas (melhores que as de Salta ou Tucumán, assegura) e o time do River, do qual é torcedor incondicional.

Fenômeno. A bateria é, mais que paixão, uma espécie de doce obsessão. Toca quase todas as noites: "Entre bandas, grupos e trios, faço parte de uns dez", conta rindo. E, claro, lidera o Escalandrum, com uma sonoridade tremendamente sofisticada, que existe há dez anos - e com os mesmos integrantes, o que é um fenômeno - e tem não apenas público cativo e entusiasmado, mas também o respeito solene dos críticos mais exigentes.

É com o Escalandrum tocando um repertório exclusivo do avô Astor que Daniel participa da 3ª edição do Bridgestone Jazz Festival, em São Paulo, na sexta-feira. Será a primeira apresentação do grupo no Brasil. A formação nada convencional do sexteto chama a atenção: há o piano exato de Nicolas Guerschberg e o contrabaixo delicado de Mariano Sivori, que com a bateria essencial de Daniel Piazzolla integram o clássico trio básico de jazz. O grupo se completa com Gustavo Musso, que se reveza entre o sax alto e o sax soprano, enquanto Damián Fogiel se concentra no tenor e Martín Pantyrer toca clarinete baixo e sax barítono. Os arranjos são desenhados por Daniel e detalhados por Guerschberg. O resultado é refinado e inventivo. O Escalandrum é um dos principais ícones do jazz argentino.

Só agora, a dez anos de sua criação, o grupo se propôs o desafio de interpretar a música do mais emblemático e genial compositor da última metade do século 20 na Argentina, o maestro Astor Piazzolla.

O repertório foi armado levando em conta os temas que soariam melhor na formação (e na atmosfera) do grupo. São clássicos absolutos: Libertango, Buenos Aires Hora Cero, Tanguedia, Romance del Diablo, Oblivion e, claro, Adiós Nonino. "Ao selecionar os temas e criar os arranjos, resolvemos respeitar o desafio, mas ao mesmo tempo respeitar a nossa própria sonoridade", diz Daniel. "Sempre quis fazer essa homenagem, um repertório só com temas de meu avô. Mas preferi aguardar até sentir que tinha chegado o momento certo." O primeiro disco de Escalandrum dedicado a Astor será o sexto da carreira do grupo, e deve ser lançado até o fim do ano.

Rigor. Antes de sentir que havia chegado a tal hora da homenagem, Daniel Piazzolla fez uma longa caminhada. Na infância e na adolescência estudou piano. Foram sete anos de rigor e disciplina. Mas ele gostava mesmo era de bateria e de jazz, da liberdade do improviso, da ideia de uma música em constante evolução. Ouvia a música do avô e sentia que nela havia, além de uma base teórica muito sólida e um elevado conhecimento de música erudita, a alma inquieta do jazz mesclando-se à raiz mais profunda do tango. E foi com o avô que ele ouvia The Weather Report, o piano de Keith Jarret, e Astor chamava sua atenção para o baterista do grupo, Jack Dejohnette. "Na verdade, ouvíamos de tudo, mas do que falávamos com mais paixão era de futebol e milanesas...", conta rindo.

Do avô o neto ganhou a primeira bateria e, principalmente, o conselho decisivo: quando teve que optar entre a universidade e a música, a família se dividiu. O trabalho de músico é instável, a carreira era extremamente difícil, bastava ver as dificuldades enfrentadas pelo pai, tecladista, e a imensa luta do avô até ser reconhecido. Daniel foi então conversar com Astor, que confirmou tudo aquilo: a carreira era difícil, ele mesmo havia penado muito até conseguir se estabelecer. E, então, depois de relacionar um rosário de dificuldades e decepções, veio o desfecho inesperado: "É bom você saber tudo isso, não vá achar que o caminho é fácil. Muito mais importante, porém, é ser feliz. Se quiser ser feliz, vá ser músico e esqueça o resto."

Desafio. Em 1992, ano em que Astor morreu depois de uma trombose cerebral sofrida em Paris em 1990, Daniel embarcou para Los Angeles, disposto a mergulhar fundo e de vez na música. "Tinha de assumir o desafio. Meu pai hipotecou a casa para que eu pudesse estudar, e foi o que fiz. Tinha de corresponder ao seu gesto, tinha de corresponder ao meu nome." Levava de Buenos Aires os três anos de estudos com um baterista histórico, Rolando "Urso" Picardi, quando desembarcou em Los Angeles. Tinha 20 anos e foi direto para o Musicians Institute. Quando voltou para a Argentina, em 1993, começava a ser outro: esse outro que é até hoje. Ou seja, um dos bateristas mais requisitados de seu país, que já acompanhou cantores e músicos como Fito Paez e Paquito de Rivera, Gary Burton e Chick Corea, Leon Gieco e Francisco Fattoruso, numa lista que parece não ter fim. Tocou na Bélgica, em Luxemburgo e no Japão, na França e na Estônia, nos EUA e no Uruguai. E vai em frente, tocando todos os dias onde tiver de tocar, porque se as milanesas e o River são paixões, a música e a bateria são obsessões.

E, quando toca, deixa bem claro duas coisas. Primeiro: cumpriu o conselho do avô para ser feliz. Segundo: soube responder à altura ao desafio de se chamar Piazzolla.

A propósito, o tubarão que ele caçava com o pai na costa sul argentina, como antes o pai caçava com o avô, chama-se Escalandrún. Foi só trocar a sílaba final por tambor em inglês: Escaladrum. Até nesse humor a herança está presente.

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