Pianolatria brasileira

O grande Mário (de Andrade, sempre ele !) gostava de implicar com a pianolatria brasileira, como ele chamava nosso interesse desmedido pelos pianistas, pelo piano. Logo o piano, esse admirável, apolíneo instrumento, que sabe enfrentar de maneira soberba seu principal antagonista, o diabólico, dionisíaco violino. Ouçam a Sonata a Kreutzer, de Beethoven, a extraordinária dignidade com que os dois instrumentos se apresentam um ao outro, se defrontam antes de entrar em luta!

Gilberto Mendes & Erudito, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Ultimamente andaram falando muito na pianista Guiomar Novaes, e me deu vontade de entrar nessa conversa. Procurei me lembrar de seus concertos em Santos, onde eu moro. Como diria meu inesquecível amigo Haroldo de Campos, posso também dizer, orgulhoso: eu vi, meninos! A grande Guiomar Novaes tocar o Concerto para Piano e Orquestra n.º 4 de Beethoven, uma especialidade dela, acompanhada pela Sinfônica Brasileira e Eleazar de Carvalho, no Clube Atlético Santista. O mesmo concerto que ela gravou com a Sinfônica de Viena regida pelo histórico Otto Klemperer. Outra apresentação, Guiomar somente, num enorme salão lotadíssimo do Colégio São José. Curiosamente, fiz a crítica a esse concerto para o jornal santista A Tribuna.

Procurei o artigo em meus arquivos, para ver se descobria alguma coisa interessante para transcrever aqui, mas não o encontrei. Estranhei, eu guardo muito bem minhas coisas! Pensei, pensei, e cheguei lá. Eu tinha me censurado! Acho que joguei fora o artigo, envergonhado por ter feito um comentário desfavorável a uma pequena passagem da Sonata opus 111, de Beethoven, que a Guiomar tocara de um jeito de que não gostei muito. No geral, obviamente, elogiei bastante. Mas se o próprio (e imenso) Debussy amou tanto ouvir a jovem Guiomar em Paris, quem era eu para fazer a menor restrição à sua interpretação?! Rasguei a crítica. Não quis guardar aquela prova de minha irreverência. Por essa época eu era ainda jovem, e um tanto impertinente. Mas, sobretudo, ainda jovem. Ah, o doce pássaro da juventude!

Dano e reparação. Quando Guiomar morreu, eu dava aulas na Universidade de Wisconsin-Milwaukee, e todos os colegas com os quais cruzei naquele dia vieram falar comigo. Parecia que me davam os pêsames pela morte de um parente meu próximo. Pude sentir, emocionado, quanto ela era respeitada nos Estados Unidos. Outra vez, professor visitante na Universidade do Texas, em Austin, novamente me emocionei muito ao ouvir pela rádio cultural da cidade um programa só com interpretações de Guiomar Novaes, dentro de uma série que apresentou o que chamaram de "os grandes mestres do piano no século 20".

Se falamos em Guiomar, logo vêm à lembrança Antonietta Rudge e Magda Tagliaferro. A santíssima trindade da pianolatria brasileira, famosas alunas do mitológico professor Chiaffarelli. Guiomar brilhou nos Estados Unidos. Tagliaferro na Europa, amiga de Alfred Cortot, Ravel, Poulenc. Marcaram profundamente minha educação musical as quatro aulas-concerto que ela deu em Santos em plena guerra, black-out total nas ruas. Parecia Londres, mas sem os bombardeios, só o lado romântico. A gente ali dentro do Cine-Theatro Casino, aconchegados, ouvindo Magda falar sobre Beethoven, Chopin, Schumann e Debussy. E depois tocá-los. Era a abertura de uma nova escuta para esses compositores tão fundamentais.

Antonietta Rudge não quis brilhar no exterior, mas foi a preferida de Mário de Andrade entre as três fenomenais pianistas. Isso basta. Sou suspeito para falar, porque fui aluno dessa ilustre senhora. Só assisti a um concerto dela, no Theatro Colyseu de Santos, talvez o último de sua carreira. Mas não precisava ir a seus concertos. Tive o privilégio de ouvi-la tocar só para mim! As peças que ela me mandava estudar. Já pensaram o que é ouvir Des Abends e Warum, de Schumann, tocadas pela grande Antonietta? E só para você?

GILBERTO MENDES É COMPOSITOR, CRIADOR DO FESTIVAL MÚSICA NOVA E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE

UMA ODISSEIA MUSICAL (EDUSP)

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