Piano de um camaleão

O polivalente Chick Corea, que toca hoje na Via Funchal, revela detalhes sobre as influências de sua carreira diversificada

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2012 | 03h08

Não é à toa que Chick Corea é conhecido como o camaleão do jazz. Só em 2012, aos 71 anos, já lançou quatro discos, cada um com uma pigmentação estilística distinta. Há Chick para todos os gostos. Trilhando as fronteiras indefinidas entre o jazz e o erudito com suas próprias composições orquestrais em The Continents; improvisando em formato padrão, de piano trio, em Further Explorations; e tocando standards do bop, em dueto com o vibrafonista Gary Burton, em Hot House. Os selos pelos quais saem esses discos reforçam a tese: um músico que lança pela ECM, pela Deutsche Grammophon e pela Concord, simultaneamente, certamente não anda entediado com suas explorações.

Isso tudo, só em 2012. A carreira de Armando Anthony Corea engloba fusion, free, erudito e pós-bop ao mesmo tempo há mais de quatro décadas. Sua ambiciosa comemoração septuagenária, no ano passado, no Blue Note, de Nova York, frisou o currículo: Herbie Hancock, Stanley Clarke e Jack DeJohnette estavam entre os parceiros que subiram ao palco para tocar. Junto a Clarke e Lenny White, com quem formou o influente grupo de fusion Return to Forever, nos anos 70, Chick também lançou The Mothership Returns, recentemente, em que revisitam, com timbres acústicos, as composições do grupo.

Trata-se do grupo com quem Chick toca hoje à noite, na Via Funchal. Na ocasião de sua viagem ao País, o pianista falou ao Estado sobre seus interesses musicais e sobre suas influências mais duradouras.

O senhor juntou Eddie Gomez e Paul Motian, dois dos grandes parceiros de Bill Evans, em um novo disco, Further Explorations. De que modo 'explorou' mais a fundo a música de Bill Evans?

Não era para ser a música de Bill Evans. Eu queria apenas tocar com Eddie Gomez e Paul Motian juntos. Quando isso aconteceu, percebi que eles tinham tocado no trio de Bill Evans, embora nunca tivessem tocado juntos. É claro que tocamos a música de Bill. Há até uma composição inédita, chamada Song n.º 1, que o filho dele me deu.

Foi uma de suas grandes influências?

Sim, definitivamente. Quando ele começou a tocar com Miles nos anos 1950, ele trouxe aquele approach completamente diferente ao piano. A beleza de seu toque e de sua concepção musical me influenciam até hoje.

Uma pena ter sido uma das últimas gravações de Paul Motian.

Pois é. Infelizmente ele nos deixou alguns meses depois. Eu queria que ele tocasse no meu aniversário, no Blue Note, mas ele já estava fraco. Ainda assim foram duas semanas de diversão e criatividade com Paul, quando gravamos.

O senhor também lançou discos pela Deutsche Grammophon e pela ECM este ano. Como equilibra essa polivalência estilística?

Depende muito da combinação de pessoas com quem toco. Cada vez é uma coisa diferente. Não penso em 'equilíbrio'. Faz tempo que não gravo algo estritamente erudito. Há dez anos gravei Mozart com Bobby McFerrin. Toco Bartók e Scriabin nos meus shows solo, mas improviso.

E quando tocou Mozart sentiu-se preso?

É diferente. Foi um desafio. Pratiquei para tocar da forma mais redonda possível. Ouvi outros pianistas. Mas, no final das contas, tentei me comunicar com a partitura. Pensar no que Mozart pensava quando compôs aquilo. Acho isso fascinante.

Em termos jazzísticos, o senhor também retorna sempre ao repertório clássico.

Eu cresci tocando essas canções. Meu pai era trompetista, e eu o acompanhava em festas e casamentos. Ele sabia todas os standards de cor. Hoje em dia, você escuta essas canções em todos os lugares.

Deve ter sido interessante

crescer em uma época tão fe-

cunda do jazz. De ser influenciado pelos grandes enquanto ainda estavam vivos.

Isso foi uma grande parte da minha vida. Comecei a ouvir Miles quando ele lançou os primeiros discos, em 1947. Ouvi todos até conhecê-lo, em 1965, em uma jam do Blue Mitchell, com quem eu trabalhava.

E as mudanças de Miles continuam sendo uma inspiração?

Pensando naqueles anos, ele fez algo muito importante para mim. Tinha uma das melhores qualidades que uma pessoa pode ter. Tinha visões e uma ideia de qual efeito queria criar nas pessoas em torno dele. Ele estrategicamente concebia esse efeito. Mas um cara que mudou tanto e tocou com tantas as bandas tinha de ser muito comedido. O fato de que ele permaneceu verdadeiro à sua música, e a gerenciou em um nível tão alto e constante, é uma inspiração. Você pode argumentar que o grande trunfo dele foi o jeito de tocar. Mas para mim, a qualidade de sua coragem e a determinação não só para ter novas ideias, mas para concretizá-las, são o grande legado de Miles.

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