Piano a serviço dos grandes

Em turnê pelo Brasil, o austríaco Till Fellner fala sobre Mozart e Beethoven

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

O tempo não apagou a sensação da primeira vez. "Eu tinha apenas cinco anos e meus pais ouviam um LP do pianista Radu Lupu na sala de casa", lembra o pianista Till Fellner. A memória tem lógicas própria, mistura real e fantasia, ele reconhece. "Mas nunca deixou de ser bem claro para mim o impacto provocado por aqueles sons, por aquele primeiro contato com a música de Beethoven."

A peça era o Concerto para Piano e Orquestra nº 5 - justamente aquela com que o pianista faz, na segunda, a primeira de duas apresentações na Sala São Paulo, dentro da temporada do Mozarteum Brasileiro (na terça, ele toca o concerto nº 23 de Mozart). Nas duas noites, Fellner será acompanhado pela Sinfônica de Bamberg, que será regida por Jonathan Nott e, na segunda parte dos concertos, tocará a Sinfonia nº 3 de Beethoven e a Sinfonia nº 4 de Bruckner, respectivamente - sem o pianista, o grupo toca também amanhã, às 11 horas, no Parque do Ibirapuera.

No palco ou na conversa, Fellner parece pouco afeito a arroubos sentimentais. A lembrança do mundo musical da infância torna-se, assim, testemunho involuntário da ligação importante que mantém com a obra de Beethoven. Às vésperas de completar 40 anos, ele é um dos principais intérpretes de sua geração. Além de gravar os concertos para piano do compositor, acaba de interpretar suas 32 sonatas para piano solo em recitais pela Europa e Estados Unidos.

"Elas são um monumento impressionante, uma montanha a ser escalada por qualquer pianista", diz Fellner. Ninguém sai intocado do processo de aprendizado dessas peças, sugere. E a maneira como o pianista compreende dá a pista do seu credo artístico fundamental: a atenção especial às intenções do compositor. "Mais do que estabelecer uma visão comum às obras e impor à interpretação ideias preconcebidas, me parece mais interessante explorar o caráter individual de cada uma delas. "É por isso que considero o fato de ter tocado todas elas o ponto alto da minha vida até agora. É fascinante, e um aprendizado enorme, ver o desenvolvimento de Beethoven, sonata a sonata, e como elas são diferentes entre si, vão do lirismo à evocação heroica."

E o mesmo vale para seus concertos para piano. "O número 5 é sua grande conquista no gênero. É uma obra de dimensão sinfônica, que coloca orquestra e piano em confronto, o que exige uma integração muito grande na hora da interpretação", diz. "E nesse sentido é bom tocar, na segunda apresentação, o concerto de Mozart, porque então entramos em um universo musical completamente diferente. Aqui, piano e orquestra caminham de mãos dadas, o tom é de música de câmara."

A atenção à lógica interna das obras deve bastante, diz Fellner, a seu "maior professor", o pianista Alfred Brendel. "Há pianistas que olham uma partitura e veem a música em conjunto, e outros que se prendem a detalhes da escrita. Brendel é dos raros músicos capazes de fazer as duas coisas, reinventando a música sem se afastar dela um só instante. Para mim, de cara, foi muito difícil me acostumar, mas a cada dia percebo a dimensão do que ele me ensinou."

Fellner atribui também em parte ao mestre sua escolha de repertório, centrada em Bach, Mozart, Beethoven e Schubert, com eventuais incursões na música contemporânea de autores como o inglês Harry Birthwistle. E, depois de escalar as 32 sonatas, já vislumbra novas montanhas. "Acho que está na hora de me voltar à música para piano solo de Mozart, Haydn e Schumann. São compositores que faço bastante, mas sinto vontade de me dedicar mais a eles, interpretando conjuntos maiores de suas obras." A conversa, então, volta a Beethoven. "Mas não quero abandoná-lo. Ele nos ensina muito sobre o homem. Sua música é pessoal, profunda, variada, contrastante, mas sempre soa como Beethoven. E, musicalmente, nunca há notas a mais ou a menos. Há uma certa pureza - e, por que não, mistério - nisso."

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