PIANISTA ROCK'N'ROLL Gabriela Montero Áudio. Ouça faixas do disco de Gabriela Montero em PIANISTA Entrevista

Ela improvisa sobre as obras dos mestres e aponta o dedo no rosto dos poderosos. Roqueira? Não, erudita

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2011 | 03h09

Quando improvisou em recitais públicos, a plateia não acreditou que a pianista Gabriela Montero de fato estava criando música no calor da hora. Por isso, a bela venezuelana de 41 anos, mãe de duas filhas, radicada em Boston, nos EUA, e de sólido prestígio internacional, recorreu ao truque do inventor do recital de piano Franz Liszt 170 anos atrás: improvisou a partir de melodias cantaroladas por alguém da plateia. "Aí o público acreditou que eu improvisava mesmo", diz. Gabriela apresenta-se hoje no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e amanhã, na Sala São Paulo. E promete pedir ao público que cantarole uma melodia para improvisar. Este, porém, é apenas um dos diferenciais desta pianista que adora os grandes mestres do passado, "os que assumiam riscos", diz ao Estado. O que lamenta é a homogeneização e o foco egocêntrico na carreira, características de 10 entre 10 pianistas da cena atual.

Gabriela incorpora o improviso e estabelece contato imediato com o público, "tornando-o partícipe do concerto". Em geral, os músicos clássicos possuem espinhas dorsais flexíveis demais, que se movimentam ao sabor do mandachuva da ocasião, seja ele o maestro, o diretor ou mesmo o político de plantão. Não Gabriela. Já no ano passado, a ex-protegida de Martha Argerich fez um duro discurso em seu CD Solatino. Obrigou sua gravadora, a EMI, a colocar seu logo em preto e branco, em vez do vermelho habitual. "O vermelho foi aplicado só no O de Solatino", escreveu no folheto do CD, "porque na Venezuela esta cor foi despojada de sua beleza apaixonada e de sua força e é agora associada à repressão, violência e opressão."

Há quinze dias estreou na Alemanha sua primeira obra para piano e orquestra, ExPatria, onde aprofunda as críticas ao regime chavista. Não se declara um animal político. Refugia-se num vago humanismo. Joga suas intervenções políticas para o escaninho da moral. E promete levar a luta adiante. Seu próximo CD terá ExPatria e um grande concerto para piano, "Rachmaninov ou Prokofiev", diz. No final da conversa, lembra entre os preferidos o pianista de jazz Bill Evans. E promete: "Se alguém cantarolar um tema dele, podem estar certos de que vou improvisar".

Os músicos clássicos aprendem a recalcar o improviso como algo espúrio em sua busca obsessiva da fidelidade à partitura. Como o improviso entra em sua vida?

Improvisar é a parte mais instintiva e natural de minha linguagem. Minha professora nos EUA me proibia de improvisar. Só me dei conta de que o que eu fazia era de fato algo especial quando, em 2001, encontrei Martha Argerich e ela me disse "tens um talento único, e precisas mostrá-lo ao mundo."

Você pede ao público que cantarole melodias para improvisar sobre elas. Recentemente, o maestro Claudio Abbado rompeu uma parceria de 15 anos com a pianista francesa Hélène Grimaud porque ela tocou uma cadência de Busoni para o concerto no. 23 de Mozart. Você improvisa nas cadências dos concertos com orquestra?

Depende do momento. Às vezes faço a cadência tradicional, às vezes escolho outra, como Grimaud fez com o concerto 23; e mesmo improviso. Agora, considero injustificada a atitude de Abbado ao se intrometer num domínio que é de responsabilidade do solista. Cabe ao pianista decidir o que fazer naqueles poucos compassos em que pode exercer sua liberdade.

Em seu último CD, você escreveu um texto virulento contra o regime de Hugo Chávez na Venezuela; e acaba de estrear como compositora a obra ExPatria, onde afirma reproduzir o caos, a corrupção e a violência reinantes em seu país. Você se considera um animal político? Não entendo de política, algo obscuro e misterioso para mim. Minha postura é humanista. Vejo na Venezuela muita injustiça, violência, corrupção e, como artista, só posso me manifestar, em palavras ou através de minha arte. Sinto que preciso usar minha voz de todas as maneiras para pedir que cessem a violência e a corrupção na Venezuela.

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