Paulo Liebert/AE
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Pianista Gilberto Tinetti celebra 80 anos

Comemoração será em concerto acompanhado da Sinfônica do Teatro São Pedro regida por Medaglia

JOÃO LUIZ SAMPAIO - O Estado de S.Paulo,

23 de maio de 2012 | 03h09

Foi com o Concerto n.º 5 - Imperador, de Beethoven, que o jovem Gilberto Tinetti se apresentou para a pianista Magda Tagliaferro. E é com ele que comemora hoje, seis década depois, seus 80 anos, acompanhado da Sinfônica do Teatro São Pedro regida pelo maestro Julio Medaglia.

A apresentação é apenas uma em um ano marcado por homenagens. No segundo semestre, Tinetti lança um disco com o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, em que interpretam o Quinteto de Elgar e o Trio para Clarinete, Violoncelo e Piano de Brahms. Na USP, onde lecionou durante décadas, uma programação foi montada por conta da data. E ele, remexendo em seus arquivos, separou gravações e procura parceiros para editá-las em CD - a principal delas, um Concerto n.º 4 de Villa-Lobos, gravado com a Orquestra da Radio Francesa (ORTF) nos anos 70.

Tinetti formou-se em Direito no Largo São Francisco, mas a música falou mais alto em sua juventude. No Brasil, estudou com Hans Bruch e, depois de conhecer Magda Tagliaferro, foi estudar com ela em Paris. "A primeira coisa que ela me perguntou é se eu estava disposto a aprender o método dela. E para mim foi ótimo, pois ela privilegiava o relaxamento muscular do qual sentia falta", conta. "Mas, além disso, o que mais me marcou em suas masterclasses, em que tocávamos e ouvíamos colegas tocar, foi a recusa em entender a interpretação como uma batalha técnica. Importava mais compreender o compositor, sua mensagem, o momento em que escreveu. E aprender ouvindo os outros ajudava também a desenvolver um senso crítico muito importante."

Da relação com a mestra, Tinetti se lembra, divertindo-se, de um comentário feito logo após ouvi-lo tocar o Imperador. "Ela disse que gostou muito e tudo o mais, em especial de um certo temperamento diabólico em algumas passagens. Levei um susto! Nunca ninguém havia me dito isso. Nem eu havia percebido esse 'diabolismo' no meu tocar."

Nos anos vividos em Paris, Tinetti lembra ainda de momentos especiais, como o encontro com a professora Nadia Boulanger, uma das figuras-chave da música do século 20. "Ela me perguntou o que eu tocava e, entre outras coisas, citei o Imperador", relembra Tinetti. "Ela fez uma pausa e então me disse: com o Imperador, sempre é bom esperar mais um pouco. Segui o conselho e acabei deixando de lado a obra durante alguns anos."

Caminho. Essa escolha de repertório Tinetti, que lida com ela não apenas como intérprete mas também no cotidiano como professor, atribui a um misto de intuição e razão. É claro, diz, que, ao se estudar determinado autor, outros se impõem e você vai criando uma trajetória específica. Mas há algo imponderável também e você simplesmente se afasta de uma obra, sem saber bem por quê."

Em Paris, apaixonou-se por Schumann. E Brahms - em especial seu primeiro concerto para piano e orquestra. "Foi a peça que toquei em Salzburgo, primeiro com a própria Magda fazendo a parte orquestral no segundo piano", recorda.

De volta ao Brasil, Tinetti foi convidado a tocar o Imperador no Teatro Municipal, reencontrando, assim, a peça. "É uma obra tão especial que, depois de um tempo, entendi o que Nadia Boulanger havia me dito. Com o tempo, você amadurece sua relação com ela, acrescenta mais dignidade à interpretação, o que nasce de um período amplo de trabalho."

Tinetti se diz feliz e surpreso com as homenagens pelos seus 80 anos. Está contente de lançar o disco com a peça de Elgar, "pouco conhecida por aqui". "Eu e o quarteto a tocamos algo em torno de 20 vezes antes de fazer a gravação e o resultado me pareceu bom", conta. No mais, não tem se dedicado a balanços ou sínteses. Perguntado sobre o significado da data, ele não pensa duas vezes antes de responder. "Sinto apenas que continuo no meu caminho."

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