Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Pianista Cristina Ortiz faz concerto em São Paulo

Baiana rebate críticas e fala sobre as apresentações de hoje e domingo no Teatro Municipal

JOÃO LUIZ SAMPAIO - O Estado de S.Paulo,

18 de maio de 2012 | 03h07

Com os braços, ela desenha a música no ar. O rosto se contorce em uma mistura difusa de sensações. Enquanto ensaia o concerto n.º 2 de Brahms, a pianista Cristina Ortiz se irrita, briga, pede silêncio na plateia, folheia freneticamente a partitura, troca olhares a todo instante com os músicos da orquestra, reclama de si própria. Ao piano, explica ao maestro o som que quer ouvir. E, quando ele vem, arrisca uma brincadeira. Abre um sorriso. "Eu sou assim", ela diz na tarde de quarta, após o ensaio. "Sinto a música com o corpo, respiro com ela, é tudo muito intenso, a todo instante. Música é paixão."

Ortiz toca hoje e domingo no Municipal o concerto de Brahms, regida pelo maestro Abel Rocha - e, amanhã, entre um concerto e outro, sobe ao palco para apresentação ao lado do Quarteto da Cidade de São Paulo, com quem executa o quinteto de César Franck, peça que gravou no ano passado na Europa.

Conversando com o Estado, ela fala sobre seu método de trabalho. Diz que não sabe "fazer de outro jeito". E reconhece que a consequência é a fama de difícil e explosiva. Sem hipocrisia - e com uma honestidade rara - ela costuma dizer o que pensa. Da última vez que tocou com a Sinfônica Municipal, em 2010, no Festival de Campos do Jordão, após uma semana tensa de ensaios, resolveu não se apresentar pouco antes de subir ao palco. Acabou sendo convencida, mas o episódio deflagrou uma crise que levaria eventualmente à substituição do maestro Rodrigo de Carvalho. No ano passado, quando a direção da Sinfônica Brasileira resolveu fazer provas de avaliação para seus membros, foi a primeira a cancelar seus concertos em apoio aos músicos, sendo seguida mais tarde por nomes como Nelson Freire e Antonio Meneses.

Episódios como esse seriam pouco mais que anedóticos se não fizessem parte da mesma personalidade que faz de Cristina Ortiz uma das maiores pianistas de sua geração. Nascida na Bahia, ela completou os estudos no Rio, no Conservatório Brasileiro de Música. Nos Estados Unidos, venceu o prestigiado Concurso Van Cliburn; de lá, seguiu para a Europa, onde está radicada até hoje. Se assume a falta de afinidade com a produção contemporânea, ou mesmo com o repertório anterior a Mozart, não se limitou em sua trajetória a um punhado de peças a serem repetidas à exaustão. Fez, por exemplo, a estreia brasileira do concerto n.º 2 de Shostakovich, peça que gravaria mais tarde na Europa, regida por Vladimir Ashkenazy, um entre muitos grandes momentos da carreira que a colocou ao lado de orquestras como as filarmônicas de Viena e Berlim.

E, seja à frente de sinfônicas em obras concertantes ou no universo intimista de recitais ou da música de câmara (com parceiros como Meneses), dedicou-se sistematicamente à redescoberta do repertório brasileiro - antes mesmo do processo recente de resgate da obra de Villa-Lobos, com gravações e novas edições de partituras, ela foi pioneira ao gravar, no início dos anos 90 em Londres, todos os seus concertos para piano, com a Royal Philharmonic (selo Decca).

Imagem. "Isso tudo é muito chato", desabafa Cristina. "No fundo, criou-se uma imagem a meu respeito que me incomoda muito. Sou, sim, exigente. E burra, falo demais, sou direta e honesta demais. E a mídia cria um monstro, uma figura sobre a qual não tenho controle. É preciso entender o contexto de um ensaio como o de hoje. As pessoas acham que fico irritada, mas não é isso! Estava apenas trabalhando, é um processo de construção de uma interpretação. Quando estou ensaiando, tenho muitas ideias, vivo tudo muito intensamente, meu corpo sente com a orquestra, a carne, o osso. Quero eles respirando comigo e eu falo: não fiquem zangados comigo! Não é briga, é querer sempre o melhor. Não sou besta, metida. Trabalhei duro para chegar até aqui. Mas não posso garantir como as pessoas vão interpretar isso."

O "melhor", no caso do concerto de Brahms, é pensar a interpretação como "música de câmara em grande escala". "A liberdade para mim é fundamental. Música é feita no momento. No ensaio, você alinhava para depois, no concerto, bordar", brinca. "Mas para isso tem de estar tudo no lugar e então os músicos da orquestra têm que saber a parte que cabe a eles", completa, se dizendo feliz com a acústica do Municipal e de trabalhar com o maestro Abel Rocha. "É um repertório difícil, ainda mais quando não se está acostumado a tocá-lo sempre. Mas vamos fazer bons concertos, tenho certeza."

A mesma sensação ela tem a respeito da apresentação com o Quarteto da Cidade de São Paulo. Eles se conheceram há alguns anos, quando ela regeu do piano um concerto de Mozart, em Jundiaí. Betina Stegman e Marcelo Jaffé, membros do quarteto, estavam na orquestra. "Eles vieram me dizer depois que estavam com medo da minha fama de má, mas que foi ótimo", conta. "Olha eles chegando para o ensaio, pode perguntar a eles, não tô mentindo não!" O quinteto de Franck, diz, está entre as peças mais difíceis do repertório, "repleta de vozes internas".

Ela relativiza a separação entre a música com orquestra e a produção de câmara. Gosta de pensar o piano como se fosse uma sinfônica e, à frente de uma orquestra, gosta de pensá-la como se fosse um piano. "Tome o concerto de Brahms como exemplo. O segundo movimento é totalmente pianístico e é por isso que gosto de, ao piano, mostrar para a orquestra o que tenho em mente no que diz respeito à interpretação."

Recentemente, a pianista atuou em Curitiba sem regente, comandando a orquestra na interpretação do concerto de Shostakovich. Tem vontade de reger? "Ah, sim, é a melhor maneira de se fazer música, sem intermediários, você e a orquestra. Assim, não é preciso explicar para o maestro o que você quer, para que ele explique aos músicos."

No ano que vem, ela fará o concerto de Shostakovich com a Osesp. O que a deixa mais animada, no entanto, é fazer com a orquestra, também em 2013, o Choro de Camargo Guarnieri. "Tocar essa obra de um paulista com a Osesp será especial", diz. Enquanto isso, prepara um recital dedicado a Debussy e dá aulas. "É quando mais aprendo."

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