Pianista brasileira brilha em novo disco

Cristina Ortiz colabora com quarteto dos EUA em álbum dedicado a francês

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h07

De Charles Camille Saint-Saëns, já se disse de tudo. Um amigo seu contemporâneo afirmou que em sua longa vida ele ficou 35 anos na vanguarda e os 35 seguintes na retaguarda. Nascido em 9 de outubro de 1835 - na mesma Paris onde brilhavam Liszt e Chopin -, morreu em 16 de dezembro de 1921, quando Ravel já reinava sozinho na música francesa. Foram 86 anos, num tempo em que poucos chegavam às cinco décadas de existência. Ainda teve tempo de ser humilhado por Ravel, que lhe sugeriu abandonar a música e encontrar um emprego melhor na 1ª Guerra Mundial.

É este o compositor objeto da terceira parceria bem-sucedida em CD da pianista baiana Cristina Ortiz, radicada há décadas na Europa, com o quarteto de cordas norte-americano Fine Arts. Em 2009, eles gravaram dois discos muito elogiados - e com justiça - por toda a crítica internacional, ambos para a Naxos: no primeiro, uma bela leitura do quinteto para piano e cordas de César Franck; no segundo, interpretações luminosas dos dois quintetos para piano e cordas de Gabriel Fauré. O lançamento de novo CD - onde Cristina e os Fine Arts tocam o quinteto para piano e cordas opus 14, o quarteto opus 41 e a barcarola opus 108 - faz pensar que a parceria pode alcançar até o século 20.

Este Saint-Saëns, arrisco-me, é a melhor leitura da última década, registro de referência para qualquer um que pretenda se aventurar neste repertório. Com direito a um verdadeiro triunfo dos músicos em sua obra-prima do gênero, o segundo quarteto para piano e cordas. Ele o escreveu em 1875, três anos depois de fundar a xenófoba Sociedade Nacional de Concertos, visando fomentar exclusivamente a música francesa, que chamava de Ars Gallica. O próprio compositor, mundialmente conhecido como grande pianista, estreou a obra ao lado de ninguém menos do que Pablo Sarasate ao violino (o viola e o violoncelo são hoje menos conhecidos). São quatro movimentos encorpados, 31 minutos de duração. Mas é música tão bem construída e com tamanho talento que jamais cansa. Particularmente emocionantes são o Andante maestoso con moto e o grandioso Finale.

Ouvir a segunda obra do CD, o quinteto para piano e cordas opus 14, escrito vinte anos antes, em 1855, é constatar o quanto Saint-Saëns evoluiu: o equilíbrio entre piano e cordas do segundo quarteto ainda não existe, o piano domina avassaladoramente o discurso musical. E Cristina aproveita a oportunidade, é claro. O CD traz ainda uma peça curta, de 10 minutos, intitulada Barcarola, opus 108. Foi escrita em 1897, quase três décadas depois do quarteto nº 2, onde a novidade está na instrumentação curiosa: violino, violoncelo, harmônio e piano. Cristina e os Fine Arts tocam a versão do próprio Saint-Saëns para piano e quarteto de cordas, banalizando numa partitura em si convencional.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.