Piade de português. Qual é a graça?

Elas estão em todos os lugares. Proliferam-se em velocidade espantosa, têm capacidade de mutação quase instantânea mal entram pelo ouvido ou pelos olhos e podem sair alteradas pela boca assim que se encontra um receptor compatível. Não, não é uma recém-descoberta bactéria, um vírus mortal ou uma forma alienígena que veio conquistar a Terra."Elas" são as piadas sobre portugueses, que têm presença garantida nas rodas de bar, reuniões de amigos, escolas, escritórios e reuniões de família. Com a Internet, então... Quem tem uma tirada sobre a lógica lusitana trata logo de enviá-la pela rede. E lá se vão enxurradas de e-mails. Sem falar nos sites dedicados a zombar do povo d´além-mar por incrível que pareça ao bom-senso, até um site governamental, da Procuradoria da República de Goiás, mantém uma página (www.prgo.mpf.gov.br/prgonova/cdij26hm.htm) com uma piada sobre português.Língua - Há quem acredite que o motivo para tanta gozação esteja nas diferenças entre as duas culturas o que, em parte, explicaria também por que franceses contam piadas sobre belgas e alemães desdenham dos franceses. O brasileiro Marcos Orlando Vita, há dois anos morando em Portugal, lembra que o sotaque e a diferença de significados para a mesma palavra aqui e lá são temas freqüentes de brincadeiras. "Mas isso não é exclusivo do brasileiro para o português", ressalta. "Parte dos portugueses tira sarro dos alentejanos por causa do sotaque deles, assim como os sulistas fazem com os nordestinos no Brasil."O músico de 27 anos, que já incorporou o sotaque da terrinha, não se incomoda quando seus parentes, no Brasil, comentam seu novo modo de falar. "Não tem jeito, a gente acaba pegando o sotaque e pronto, oras."Aspectos históricos - Para Joaquim de Sousa Magalhães, assessor de diretoria e coordenador da Casa de Portugal, em São Paulo, a questão não é tão simples assim. Ele acredita que as piadas sobre seus patrícios vêm do estigma deixado por uma análise simplista da História: "Há aspectos do passado muito mal contados, e acabou ficando o estigma de uma colonização malfeita e o desdém pelo português. Mas não se questiona que a presença portuguesa fez muito por aqui, mantendo, por exemplo, as imensas fronteiras de um país com dimensões continentais", defende.Magalhães não é o único a considerar os lusitanos injustiçados. O jornalista Bias Campos Arrudão, 45, um brasileiro que diz adorar a terrinha (foi para lá três vezes e pretende voltar logo), também julga que eles foram pegos como bodes expiatórios. As piadas seriam, então, uma forma dos brasileiros atribuírem aos portugueses culpa pelos defeitos do País. "De certa forma, os escolhemos como vítima", observa.Arrudão destaca outro aspecto da história da colonização, relacionado à imigração: quem sai de sua terra natal para uma outra quase desconhecida, mas sabidamente inóspita, o faz para fugir da pobreza e de outras dificuldades da vida. Parte dos portugueses que vieram para cá, então, era formada por pessoas de poucas posses e praticamente nenhum estudo e foram essas que o Brasil conheceu. "O português que imigrou para o Brasil nos anos 30 e 40 foi o camponês do norte de Portugal, pobre e analfabeto", assinala o também jornalista Maurício Assumpção, 34 anos, três vividos em Portugal. Assumpção salienta ainda um terceiro aspecto às causas da subestimação do português pelo brasileiro: o atraso do país luso causado pela mais longa ditadura da história ocidental - o salazarismo, que durou de 1924 a 1974. "Salazar tinha uma política de relações internacionais que dizia que, se o mundo quisesse negociar com Portugal, teria de ir até lá. Ele chegou ao extremo de nunca ter colocado os pés fora do país." Esse isolacionismo, analisa o jornalista (neto de portugueses), implicou um grande atraso para Portugal.Amigos ou inimigos? - Apesar de concordarem sobre a fama injusta dos portugueses, Magalhães, português, e Arrudão, brasileiro, têm opiniões diversas sobre o que impulsiona o ser humano a fazer uma piada. "Nos divertimos fazendo piadas com quem gostamos, como irmãos e amigos", declara Magalhães, que considera a boa relação entre as duas nações condição essencial para a existência das piadas."Geralmente, conta-se piada sobre quem você quer provocar", discorda o jornalista. Na contramão das piadas de português, Arrudão exemplifica sua afirmação citando piadas sobre brasileiros feitas na terra de Camões. "Ouvi muitas brincadeiras sobre a desonestidade do brasileiro. É uma coisa recente, mas acontece. Aliás, essa fama é tão forte que, certa vez, não consegui trocar um "traveller check" num banco em Portugal. O funcionário, com muito respeito, me disse que era uma norma da direção não fazer a operação para brasileiros."Sem bronca - Para muitos portugueses e descendentes de portugueses que vivem no Brasil, ser motivo de piada não altera mais o humor. "Meu pai também tirava sarro de português", conta Rosimeire Dias Ferreira, 36 anos, sobre a atitude do pai - uma espécie de "se não pode vencê-lo, junte-se a ele".Rosimeire, representante da primeira geração de brasileiros da sua família, lembra que, quando era pequena, não entendia o motivo de tanta chacota com o povo lusitano. Mas também, diz, não se sentia ofendida. "Eu tinha vergonha de falar que meu pai era português, mas não chegava a considerar as piadas como ofensas", revela.Magalhães afirma que o importante é saber o limite entre a graça e a ofensa. "Algumas piadas são realmente engraçadas, mas outras são de muito mau gosto, pois insultam os portugueses." E cita exemplos: "Outro dia, Ana Maria Braga perguntou para o Louro José qual a diferença entre um português e um louco. A resposta era que o louco tinha cura. Foi muito grosseiro. Já o Jô Soares conta muita piada, mas não é para denegrir a nossa imagem, é para fazer graça".Mas como os brasileiros podem saber onde fica esse tênue limite? Olhando para si e analisando se há maldade na intenção da piada, ensina o coordenador da Casa de Portugal. "Se as piadas não forem maldosas, são bem-vindas. Eu, por exemplo, posso dizer, de brincadeira, que o brasileiro só faz piada de português porque não conhece outra língua."

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