Petrus Cariry cria ação em planos parados

Filho de Rosemberg Cariry estreia em alto nível em O Grão

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

Brilho próprio. Dificuldades fazem lembrar "Vidas Secas" É um empreendimento familiar - Rosemberg Cariry assina o argumento e o roteiro de O Grão, seu filho Petrus Cariry é o diretor do longa que estreou sexta-feira. Por uma feliz série de circunstâncias, O Grão oferece o melhor de ambos. Não por acaso o filme tem colecionado prêmios em festivais do País e exterior.

Há uma cena cinematográfica rica no Ceará. Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Pedro Diógenes, Luiz e Ricardo Preti, que venceu o Festival de Tiradentes, é um pouco a súmula dessa criatividade. Mas já existia, em Fortaleza, Rosemberg Cariry. Ele poderia ter revolucionado o cinema. Bastaria ter-se colocado diante da câmera para narrar, diretamente para o espectador, as histórias que muitas vezes têm dificuldade para colocar em imagens, ou em simetria audiovisual.

Rosemberg Cariry tem o dom da palavra, é um grande fabulador. O Grão mostra uma família no sertão - pai, mãe, casal de filhos, a avó. Essa última, como Rosemberg, tem o dom do Verbo e conta para o neto uma história fantástica, que evolui em blocos, sempre interrompida e retomada até o desfecho.

As dificuldades familiares fazem lembrar, até pelo cachorro, aquela outra família, do clássico Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, embora os dois filmes sejam distintos - e não apenas pelo emprego da cor em O Grão, um trabalho primoroso do fotógrafo Ivo Lopes Araújo. A família de Vidas Secas colocava-se na estrada, procurando superar o impasse da seca, tratada metaforicamente. Em O Grão, o pai, criador de cabras, busca uma saída na cachaça, a filha sonha com o casamento e o menino ouve essa história que trata de nascimento, vida e morte, o ciclo da existência.

Mas o mundo mudou entre Vidas Secas e O Grão e o signo mais evidente é o televisor, integrado à casa. Só que o conto da avó é mais importante. O roteiro não é narrativo. Existem cenas que não fazem avançar a história nem nosso conhecimento dos personagens. O brilho é todo da realização. Petrus sabe como construir seus planos e criar uma ação particular. O plano é parado, mas dentro dele os personagens estão sempre envolvidos em ações próprias, isolados em suas solidões. Ele já estreia maduro no longa.

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