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'Petrificus totalus'

O essencial da ideia é que a palavra petrificadora interrompe qualquer reflexão racional

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 02h00

Na série sobre o bruxo Harry Potter, aprendi que o feitiço chamado petrificus totalus imobilizava por completo uma pessoa. Bastava pronunciar a fórmula e, com o auxílio da varinha e do poder mágico, a vítima estava incapacitada de seguir adiante, pétrea e inerte. 

Descobri nas palestras e no ofício de escritor público que há palavras tão paralisantes quanto o encantamento. Não exatamente a imobilização física das personagens de Hogwarts. As novas palavras paralisam o cérebro, impedem a reflexão, tornam aquele que escuta incapaz de ir adiante, bloqueado pelo apelo sonoro e simbólico daquele termo poderoso. O efeito deriva de um ódio ou de um amor tão intenso que não existe mais chance de reflexão. O ouvinte que ouve o termo-sortilégio para, ataca ou defende, baba, queima, regurgita e se contorce como uma vítima de mil demônios a torturar sua alma atormentada.

Quais as principais detonadoras de petrificus totalus na cena brasileira? Não conseguirei esgotar, porém identificarei algumas. O caro leitor e a querida leitora podem acrescentar outras e ampliar a lista limitada que sugiro. As principais palavras/conceitos/expressões causadoras de interrupção cerebral, imobilização neuronal e reações sulfúreas de asco flamejante são: Lula, Moro, Lava Jato, gênero, ideologia de gênero, PT, Aécio, PSDB, Dilma, cotas, Venezuela, Maduro, bolivarianismo, Cuba, quilombolas, Bolsonaro, MBL, bolsa família, escola sem partido, Marielle, ditadura militar, intervenção militar, terrorista, Trump, pessoa de bem, bandido, Judith Butler, racismo, homofobia, misoginia, elites brancas, nordestino, Boulos, MST, MTST, exposição do Santander, aparelhamento, Marx, meritocracia, direitos humanos, esquerda, direita, extrema esquerda, extrema direita, PSOL, DEM, feminismo, indígena, MDB, Temer, aquecimento global, ecologia, República de Curitiba, evangélico, ateu e muitas outras.

São mais de 50 palavras ou expressões que consegui evocar em um primeiro instante sem consultas ou pesquisas. A lista poderia ir a cem ou mil, se incluísse debates sobre consumo de carne ou preferências esportivas como Corinthians. Cada uma possui o dom de evocar no ouvinte/leitor sentimentos profundos e preconcebidos com uma respectiva torrente de amor ou ódio. O essencial da ideia é que a palavra petrificadora interrompe quaisquer hipóteses de matiz ou reflexão racional. Ao evocar Lula ou Moro, ninguém diz “sei pouco sobre o caso” ou “não tenho dados suficientes para analisar”. Todos sabem tudo. Os nomes sempre serão acompanhados por fortes adjetivos, insultos, julgamentos, ataques e uma carga emotiva excepcional com sinais físicos de exasperação. Repulsa, fastio, nojo e todos os sinônimos que você possa encontrar estarão presentes.

A pergunta que faço é mais psicanalítica do que política. Quando um casal briga de forma intensa sobre um detalhe do cotidiano, sabemos que não está discutindo aquele ponto, todavia uma série de atritos e raivas represados ao longo de anos. A tampa do vaso ou o uso de mais sal na comida constituem, apenas, o “assassinato do arquiduque”, a causa imediata e formal da Grande Guerra. As discussões a dois sempre começam por algo menor, um gatilho, um detonador ou uma justificativa. Ocultos estão a bala, a arma e os motivos do atirador. O casus belli sublima dores mais densas.

Aqui proponho a pergunta para a qual não tenho uma resposta clara. Quando sinto o sangue subir ao rosto e uma vontade forte de insultar ou até agredir o interlocutor/autor que emprega uma dessas palavras, o que de fato está “me pegando”? O que originaria a overreaction? Quais as dores que transfiro de um campo principal para um campo menor? Por vezes a resposta é mais cristalina. Há 30 anos, devolvi uma prova a uma aluna com uma nota baixa. Ela começou a chorar, transmutou a lágrima em soluço alto e, por fim, afirmou que eu, o pai dela, a mãe, os irmãos e os amigos a considerávamos uma idiota incapaz. Entendi logo que a nota da prova não era o problema principal que estava sendo trazido à tona. A avaliação fora uma rede jogada sobre o oceano interno dela, revelando peixes estranhos, pedras, algas, arpões, espinhos e seres terríveis das profundezas que a própria dona da fossa marinha não imaginava possuir. O que discutimos quando debatemos temas polarizados? Pessoas que não fazem da política sua vida deveriam reagir de forma tão intensa? O que estariam, de verdade, silenciando sob o nevoeiro dos termos? Penso o mesmo sobre o trânsito: o motorista que não permite a passagem de outro revelaria o sentimento latente de fracasso e humilhação de quem não deseja, ao menos naquele cruzamento, ser mais uma vez preterido? Quais ódios o grande ódio vela? O que estaria em jogo na gramática da recepção das palavras e conceitos? Parece que há coisas mais terríveis e assustadoras sob a crosta frágil dos termos. Qual o meu medo e qual o seu medo? Nossa reação pode ser uma pista importante para esse conhecimento. Há mais mistérios entre Moro e Lula do que sonha nossa “vã” Filosofia. Bom domingo para todos nós. 

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