Peter Sloterdijk reconstrói suas matrizes do ocidente: cinismo e ira

Peter Sloterdijk reconstrói suas matrizes do ocidente: cinismo e ira

Chegam ao Brasil duas obras do alemão, publicadas pela Estação Liberdade

Rodrigo Petronio - O Estado de S. Paulo,

13 de julho de 2012 | 18h00

Em uma invocação à deusa da poesia, Homero crava a decisiva primeira palavra do primeiro verso da Ilíada: ira. A obra fundadora da civilização ocidental se abre com uma glorificação da violência e do desempenho divino da ira, valorizada como potência psicopolítica dos heróis. Séculos depois, estamos diante de um relevo. Alexandre encara o filósofo cínico Diógenes, que passava a vida como um cão, em um barril. De acordo com a tradição, Alexandre teria lhe dito que se não fosse o imperador que era, gostaria de ser ele, Diógenes, o andarilho imundo de Atenas.

Peter Sloterdijk (1947), mago da filosofia contemporânea, parte dessas duas cenas inaugurais para reconstruir as duas matrizes do Ocidente: o cinismo e a ira. Esse empreendimento filosófico monumental chega pela primeira vez ao Brasil com as obras Crítica da Razão Cínica (1983) e Ira e Tempo (2006), recém-lançadas pela Estação Liberdade, em primorosas traduções realizadas por Marco Casanova e um grupo de colaboradores coordenados por ele. Encontra-se também no prelo da mesma editora o primeiro volume dos três volumes de Esferas, seu opus magnum. A tradução é de José Oscar Marques, autor também da tradução de Regras para o Parque Humano, conferência que disparou a polêmica do filósofo com Habermas, em 1999.

O cinismo é tratado em duas partes. A primeira analisa o seu sentido antigo (kynismos) e como se processa a divisão entre este e o cinismo moderno. Essa mudança se dá no momento em que a atividade cínica "troca de lado", ou seja, de uma potência crítica passa paulatinamente a assumir a "lógica dos senhores", tornando-se a forma cifrada do pensamento moderno. A segunda, em quatro seções (fisionômica, fenomenológica, lógica e histórica), mostra a construção do cinismo no pensamento moderno.

Recusada pela altivez da filosofia, a força cínica migra para a arte e a literatura. Muito instrutivo é o Gabinete dos Cínicos, no qual Fausto, a lenda do Grande Inquisidor e Heidegger são dissecados como expoentes da guinada cínica moderna. Em uma análise fenomenológica, desde a Antiguidade até o século 20, assistimos à metamorfose do cinismo. Na seção histórica, a obra se fecha com uma anatomia da República de Weimar. A dinâmica cínica se infiltra na raiz dos totalitarismos. A nossos olhos, a serpente troca de pele.

O cinismo nasce de uma "divisão da consciência", quando esta é incapaz de distinguir entre as forças de autonomia e as de alienação. Há três formas de falsidade: a mentira, a ilusão e a ideologia. Desde o século 18, por meio de uma visão de mundo laica, secular e racional, o processo modernizador tentou erradicar essas três formas do falso. Mas o ideal do Esclarecimento teria estagnado em uma crítica ideológica da sociedade. Sem poder seguir adiante, deixou-se absorver pela força onívora da quarta falsidade, com a qual fez seu pacto silencioso: o cinismo.

Dominados por uma "falsa consciência ilustrada" e por uma "ideologia reflexiva", passamos a viver sob o império de um "cinismo universal difuso". Justo os representantes de nossos ideais de liberdade passaram a exercer o monopólio da mentira, oculta sob a lógica ambígua do cinismo. O agravante dessa situação é que ele não é tão detectável quanto o era: a dinâmica ambivalente entre kynismos-cinismo apaga as fronteiras entre liberdade e domesticação.

A força do cinismo antigo foi aclimatada às modernas estufas de conforto. Seus gestores não são mais sábios mendigos de Atenas, mas o Estado, professores universitários, partidos políticos, formadores de opinião. Todos mentem, sobretudo quando dizem a verdade. Todos falsificam a realidade, especialmente quando nos oferecem o elixir de nossa salvação. Pois um dos critérios do marketing da falsidade é ser honesto. A transparência alimenta todos os dias o commodities do cinismo. As ações da virtude são as que mais sobem na bolsa cínica. A mentira não é mais o fundo podre da civilização, como queriam Freud e Benjamin. Ela veio à luz. Tornou-se um bem de primeira necessidade.

Como romper esta bolha universal de cinismo? A ira seria a arma que nos teria restado? Infelizmente, não. Desde a Antiguidade, a ira é uma riqueza psicopolítica. O motor civilizatório. Todos os imperadores souberam empregar topicamente a ira para promover suas divinas destruições. Com a emergência dos monoteísmos, ela ganhou em refinamento. Não são mais deuses humanizados que se apossam da consciência enfurecida do herói e o levam a matar. O herói torna-se o médium entre o inimigo e uma substância sutil fora do mundo: Deus. Essa transcendência da ira torna os executores da destruição duplamente divinos.

Mas se a ira se realiza nessa interface divino-humano, em qual de seus espelhos o nosso mundo poderia se refletir? Como a época mais sanguinária da história conseguiu legitimá-la? Esse segredo se esclarece em um conceito precioso: o thymos. O thymos é um conflito interno da consciência heroica no desempenho da violência. Mesmo sabendo que age em nome da justiça humana e da vontade dos deuses ou de Deus, o irado sabe também que sua ação precisa de um reconhecimento. É este o coração das lutas políticas modernas.

A "revolução timótica" ocorre quando as sociedades modernas percebem que precisam legitimar sua ira, mas não têm instâncias metafísicas às quais atribuir suas ações. O que fazer? Investir toda a economia da ira na autoestima e em guerras coletivas de reconhecimento. Nesse sentido, o comunismo foi uma das mais eficazes administrações da ira. Os burocratas soviéticos, os seus maiores especialistas. A filosofia revolucionária percebe com lucidez que não basta ter ira. É preciso capitalizá-la. No comunismo, a ira encontrou sua melhor seguradora. Nasce com ele o fundo monetário da ira.

O "banco comunista da ira" foi uma forma lucrativa de mobilizar as energias psicopolíticas. Com os quase cem milhões de mortos em âmbito mundial, o comunismo cumpriu sua meta proativa. Afinal, como notou profeticamente Bataille, a economia não vive apenas de dinheiro, mercadoria e mais-valia. Uma de suas maiores forças reside naquela despesa que não retorna: a morte.

Porém, os combustíveis fósseis se esgotam. Mesmo se eles forem corpos humanos. Para que esse investimento inicial na morte fosse positivo à bolsa de valores comunista, precisava ser reinvestido. A partir de então, os bens psicopolíticos adquiridos com o terror se desdobraram no plano político. O que foi a Guerra Fria, senão uma imensa guerra timótica? O que são as relações internacionais senão uma enorme disputa timótica de poder? Qual a função da energia nuclear hoje em dia senão a de desempenhar uma rivalização mimética por reconhecimento? A ameaça nuclear é um dos mais líquidos investimentos da ira, pois consiste num adiamento indeterminado da vingança que capitaliza a violência em benefício de seus acionistas.

O que chamamos de globalização teve três etapas. Na paleopolítica da pré-história, os homens viviam em jangadas sociais. O mundo era a horda. Na era das políticas imperiais, gigantescas mobilizações militares, metafísicas e administrativas foram sopradas pela ira divina. O mundo era o império. Na hiperpolítica da nossa era, inaugura-se uma nova modalidade: a política cinética. Omundo é a imagem do mundo. Esta consiste em uma guerrilha planetária na qual indivíduos, grupos, países e outros agenciadores coletivos tentam assegurar o símbolo de seu reconhecimento por meio de jogos difusos de cinismo e ira, entre autoestima narcísica e vinganças coletivas adiadas.

A expansão comunicativa do século 21 não é o começo de uma etapa, mas o fim agônico de uma odisseia antropológica. A aliança devastadora entre capital, biopolítica e tecnologia ainda está em sua primeira dentição. O capitalismo mal começou. O terrorismo não é nem um índice profético de sua crise, nem um patrimônio exclusivo da economia religiosa. O terrorismo é apenas uma modalidade da cultura de entretenimento. Entre nádegas flutuantes no domingo televisivo e aviões derrubando torres gêmeas, a diferença é de grau, não de natureza.

No Palácio de Cristal, a única moeda é a sobrevivência. A única lei, a que mantém seguras as estufas climatizadas nas quais deslizamos dia e noite. Não há ira capaz de destruir a autoimunização desses balões nos quais navegamos, no espaço interior do Capital. Qualquer um que queira desmentir isso será uma testemunha involuntária de seu próprio cinismo.

Sloterdijk é um escafandrista de zonas abissais, um colonizador ultrarrealista do futuro. Espécie de Diógenes extraviado, seu riso não é afirmativo. Brota da bílis negra. Mas como diz o ditado, todo riso é sinal de saúde. Se filosofar é abandonar sistematicamente a inocência, a obra do mestre de Karlsruhe se endereça aos que perderam toda a inocência, sem perder por completo a esperança. Por esses e outros motivos, Peter Sloterdijk é o maior filósofo vivo. Como Nietzsche, nasceu póstumo. Aos seus leitores, bem-vindos ao terceiro milênio. Aos vencedores, as batatas.

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR, ENSAÍSTA E PROFESSOR DA FAAP. PUBLICOU, ENTRE OUTROS, VENHO DE UM PAÍS SELVAGEM (POESIA, TOPBOOKS) E ORGANIZOU AS OBRAS COMPLETAS DO FILÓSOFO VICENTE FERREIRA DA SILVA (ED. É)

 

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