Peter Brook revela sabedorias africanas

Aos atores Sotigui Kouyaté, Yoshi Oïda e Bruce Meyers - já conhecidos no Brasil - juntam-se Habib Dembélé, Rachid Djaïdani e Hélène Patarot. Um desavisado jamais suporia vir da França uma companhia com tais nomes no elenco e ainda Abdou Quologuem, Dorcy Rugamba e Pitcho Womba Konga. Pois eles fazem parte do elenco da peça Tierno Bokar, nova montagem do diretor inglês Peter Brook, cuja inquietação levou a fundar na França, em 1970, um Centro International de Criação Teatral (CITC), com atores de múltiplas nacionalidades. Sem jamais deixar de encenar textos de Shakespeare, cujas montagens lhe valeram muitos prêmios e renome internacional, a inquietação de Brook também conduziu seu teatro para além das fronteiras do continente europeu. Os conflitos e a sabedoria característicos da cultura africana são matéria-prima de seu mais recente espetáculo, que o público brasileiro verá antes mesmo dos franceses, uma vez que a montagem só entra em cartaz no Théâtre Bouffes du Nord, sede do CITC, em outubro. Tierno Bokar - baseado no livro Vida e Ensinamentos de Tierno Bokar, o Sábio de Bandiagara, escrito por Amadou Hampâté Bâ sobre um líder espiritual africano - estréia hoje para convidados no Sesc Vila Mariana, onde faz quatro apresentações, até sexta-feira. Depois, segue para o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte, responsável pela vinda do CITC ao Brasil. Graças a uma parceria entre a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e o Sesc-SP, a viagem da companhia estendeu-se de BH a São Paulo, onde atores experientes, que já pisaram palcos dos quatro cantos do mundo, como Sotigui Kouyaté e Yoshi Oïda darão ainda workshops para atores de grupos de Teatro Vocacional (amador) em unidades dos Centros de Ensino Integrado (CEUs). Etnólogo e filósofo nascido em Mali (antigo Sudão), Amadou Hampâté Bâ (1901-1991) adquiriu forte bagagem cultural européia, "sem jamais abandonar raízes culturais profundamente fincadas no continente africano", segundo Peter Brook, que o conheceu pessoalmente. Respeitado na Europa, escreveu vários livros, entre eles Tierno Bokar, sobre seu primeiro mestre, que vivia na aldeia onde nasceu. "Vimos que ali havia algo de muito dramático", diz Brook. Parceira do diretor há muitos anos, a dramaturga Marie-Hélène Estienne assina o texto adaptado. Num ensaio, sem figurinos, iluminação ou cenário, realizado anteontem no teatro (ainda em obras) da Galeria Olido, no centro, e aberto à classe teatral, o espetáculo surpreendeu pela simplicidade. Com o auxílio de um narrador (e das legendas em português), o público vai aos poucos conhecendo o modo de viver nas aldeias africanas do século passado sob domínio do colonizador. Como em qualquer parte do mundo, há disputas de poder, gente sábia, gente tola, pequenos incidentes. Porém, um desses incidentes, uma diferença surgida por mero acaso entre rituais religiosos (rezar 11 ou 12 vezes a oração por ironia chamada Pérola da Perfeição), vira elemento de manipulação tanto para a mesquinhez de nativos quanto serve à arrogância do colonizador, o que resulta em tragédia. Ao fim, fica a sensação de que Brook escolheu essa história como fábula, para retratar conflitos bem contemporâneos entre nações arrogantes e nações subjugadas. Tierno Bokar. Direção Peter Brook. AdaptaçãoMarie-Hélène Estienne. Espetáculo com legenda. 100 minutos. 12anos. Sesc Vila Mariana - Teatro (608 lugares). Rua Pelotas, 1415080-3000. Hoje e sexta, 21 horas. R$ 30

Agencia Estado,

17 de agosto de 2004 | 16h45

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