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Humberto Werneck
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Pessoa em situação de casa

Somos hoje ‘pessoas em situação de casa’. Não todos, infelizmente

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 03h00

Faz décadas que convivo comigo mesmo, sem maiores reclamações – mas, em regime de radical e prolongada monogamia, até hoje não tinha acontecido. E aqui estou eu a trombar comigo 24 horas por dia, sem ter em quem descarregar, se fosse o caso, imaginárias implicâncias e picuinhas conjugais. Rolo de abrir massa, nos meus domínios, de nada serviria em caso de conflito, a não ser como instrumento para o suicídio. Uma coisa é certa: como tantos (nem todos, infelizmente), sou hoje – adaptemos o jargão do politicamente correto – uma pessoa em situação de casa. Vida social, neste momento, só por internet ou telefone. De tão virtuais, acabaremos virtuosos? 

Se o bicho pegar, e aqui não me refiro ao coronavírus, só me restará fazer minhas as palavras que o portuga Sá Miranda pôs em versos cinco séculos atrás: 

Comigo me desavim,

sou posto em todo perigo;

não posso viver comigo

nem posso fugir de mim.

*

Mais do que nunca, me sinto na pele de uma figura que, com este nome, já não existe, o “Sr. só”, outrora encontradiço nos anúncios classificados: “Sr. só procura cozinheira”. Eis aí, falar nisso, uma categoria profissional da qual, por escolha própria, há muito não tenho representante junto ao fogão. Faz tempo que preparo eu mesmo as minhas refeições; um tanto monótonas, devo admitir – dessas que, menos por preguiça do que por incapacidade de preparar alimento em porções miúdas, para consumo imediato, já nascem condenadas a prolongado entra-e-sai na geladeira. 

Diante de tais produções culinárias, meus olhos raramente chegam a brilhar; em geral, limito-me à fria – ou requentada – constatação de que, se ali não há delícias, pelo menos estão representados os lipídios, os protídeos e os glicídios de que meu organismo necessita. Olhar para o filé e nele enxergar apenas proteína... No departamento alimentar, quando sou o cozinheiro, às vezes me comporto como cônjuge que, por inapetência libidinal, apenas cumpre, e a quanto custo, os chamados deveres de estado. 

A essas refeições (ia escrevendo “gororoba”, mas seria injusto com o meu discreto talento culinário), porém, o bom senso, a preguiça ou a legítima gulodice sempre me levaram a entremear, fora de casa, obras de cozinheiros de verdade, seja em “quilos”, seja em restaurantes com garçom ao pé da mesa. E agora me vejo, pela primeira vez, por não se sabe quanto tempo ainda, condenado a pratos de minha própria concepção & lavra, a menos que recorra ao caixote nem sempre confiável de um delivery. E sei o quão longe estou dessas criaturas talentosas que com água e sal produzem uma bacalhoada. 

Até que sou um razoável dono de casa. Não foi preciso ter dispensado a Bia por uns dias – até quando? Até quando? Para descobrir que a louça não se lava sozinha, e muito menos, já limpa, retorna ao armário sem ajuda; que a roupa suja não chama a si a iniciativa de rebolar na máquina de lavar, nem os lençóis, a cada manhã, voltarão a se estender sem rugas sobre a cama. Por fim, mesmo sem o concurso de minha diligente auxiliar eu já sabia que as plantas, numerosas neste apartamento, não são camelos de atravessar deserto sem um gole d’água. Estarão vicejantes, espero, quando a Bia voltar.

Desde o início da reclusão, me dou conta agora, nunca mais me enfiei numas calças, nem calcei um sapato. Meu falecido pai diria que, de havaianas, camiseta e bermuda o tempo todo, estou “num rascunho danado”. Nada que impeça, em todo caso, de uma vez por dia descer ao térreo para caminhar durante uma hora em torno dos dois predinhos deste condomínio Cosme e Damião. Trabalhando agora exclusivamente em casa, reluto em trocar o citado rascunho por uma roupa de sair à rua, como fazem alguns colegas de reclusão. Estou conformado com o fato de que me converti, como empregadas de outros tempos, em trabalhador que dorme no emprego.

*

Entregue à minha própria companhia, vou ganhando consciência das manias, felizmente inofensivas (acho), que acumulei durante a vida. Não é impossível que, à míngua de assunto, numa semana dessas eu as desfie por escrito; mas fiquemos, por ora, com as manias alheias, das quais tratei recentemente. A exposição, nas duas últimas rodadas, de um punhado de maluquices benignas trouxe à luz outras tantas bizarrias, das quais aqui vão amostras.

De Minas, o amigo Barros me falou de uma prima que suspende a caminhada se lhe vem alguma ideia ruim; dá meia volta e rebobina o passeio até o ponto onde estava antes da chegada dos maus pensamentos, e só então recomeça. Dá certo, garante ela. Outro camarada meu, o Cacalo, quando papeia pelo WhatsApp com alguém que esteja em viagem, não apaga as mensagens até que a criatura retorne para a base. “Tenho medo”, revela, “de apagar também a pessoa”. A Anileda conta de um parente, trabalhador no ramo da eletricidade e da hidráulica, que várias vezes ao dia, em meio às funções do ofício, desce da escada para limpar minuciosamente os alicates e chaves de fenda. Não há dia, conta a Anileda, em que o perfeccionista não dê brilho a suas chaves e ao chaveiro.

O Moura, por seu turno, dá notícia de um morador da cidade onde vive, do qual todos conhecem o hábito de dividir o rolo de papel higiênico, de 40 metros, em 40 pedaços iguais, sabe-se lá porquê. A querida Eny, sem dar nomes, fala de gente que não chora sobre o vinho derramado, preferindo passar nele o dedo para se persignar, como se faz com água-benta. A Rita relembra o avô, homem finíssimo que nem por isso acolhia qualquer cumprimento estendido na sua direção. “Não sei onde andou essa mão”, justificava com franqueza. Médico, deixou de clinicar por causa do pavor que lhe inspiravam, veja só, as doenças. Faria par, quem sabe, com outro cavalheiro, apresentado pelo Sardy, que quando oferecia assento a uma dama, em ônibus ou salão de festa, não mais voltava a sentar-se, mesmo quando vagavam cadeiras. Talvez, penso eu, fosse recurso para manter de pé também a admiração que seu gesto cavalheiresco suscitava.

Do Rodrigo me veio a história de um solteirão, intelectual de respeito, que na intimidade administra dois tipos de coleções: pequenas lagartixas secas, cada qual numa caixinha de fósforos, e, no mesmo tipo de recipiente, pelos pubianos das mulheres com as quais se deita, identificados com os nomes das ex-proprietárias e respectivas especialidades eróticas. Faz tempo que só a coleção de lagartixas segue aumentando. Mas convém ficar por aqui, pois não há reclusão do coronavírus que justifique derrapada rumo ao melindroso terreno dos países baixos. 

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