Pesquisas poéticas de Pedro Costa

Cineasta participa de debates no Rio e em São Paulo e expõe na Bienal

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2010 | 00h00

Juventude em Marcha. Imigrante cabo-verdiano tem que enfrentar a separação da mulher      

 

 

 

 

 

Retrospectivas em São Paulo e no Rio resgatam, a partir de hoje, a obra de um dos mais exigentes artistas contemporâneos. O português Pedro Costa, chamado de cineasta dos pobres em seu país, participa do evento, debatendo com o público nas duas cidades. Em São Paulo, ele se integra ao grupo de artistas visuais, como o tailandês Apichatpong Weerasethakul, que vai apresentar instalações na 29.ª Bienal. De Lisboa, o atarefado Costa encontrou tempo para conversar, pelo telefone, com o Estado.

 

 

Você é conhecido principalmente por sua trilogia sobre cabo-verdianos, formada por Ossos, No Quarto de Vanda e Juventude em Marcha. Esses filmes nasceram realmente como uma trilogia?

A coisa é um pouco mais complexa. Quando decidi filmar os cabo-verdianos pela primeira vez, não foi no bairro lisboeta de Fontainhas, mas na ilha de Santiago. Como para cá voltava (Lisboa), encarregaram-me de entregar cartas e pacotes a seus familiares, o que fiz. Como já dominava algo do linguajar crioulo, isso facilitou minha aceitação pelos integrantes da comunidade em Lisboa. E foi assim que fiz Ossos, após Casa de Lava. Mas não é uma trilogia. Depois de Juventude, fiz um curta e preparo o quarto longa.

 

Você começou com 35 mm e aderiu ao digital. Por quê?

Estava desiludido com o circo do cinema. Maquinário, caminhões, gruas, refletores e um Exército de gentes para manipular e controlar todo esse equipamento. Imagino que seja um sentimento próximo ao de certos cineastas brasileiros, quando vão filmar nas favelas. Aquelas pessoas já enfrentam tantos problemas. O cinema é mais uma força invasora. Diminuí o equipamento para chegar mais próximo à intimidade delas. Creio havê-lo conseguido.

 

Sua obra exigente ganhou homenagens recentes em Londres e Paris, agora no Brasil. Isso não o surpreende?

Sim, mas é preciso reconhecer que o circuito comercial não dá conta das ansiedades e necessidades do público de cinéfilos. Existem espectadores que querem algo mais, e há que satisfazê-los. Nunca vou fazer o público de uma grande produção comercial, mas tenho cá os espectadores que me seguem. Glauber Rocha e (Jean-Luc) Godard sempre usaram muito a expressão recherche. Como a eles, o cinema que me interessa é o de busca. Um cinema de pesquisa.

 

Essa pesquisa não é só formal. Seus personagens também buscam sempre alguma coisa.

Vanda busca emoções, os imigrantes de Juventude em Marcha buscam lembranças e Jeanne Balibar, em Ne Change Rien, busca o verso certo para se expressar como cantora. Todo mundo busca alguma coisa.

O filme com a Balibar muda alguma coisa em sua pesquisa?

Nasceu como um ato de amizade meu com ela e o técnico de som Philippe Morel. Demorou cinco anos e eu a filmei dos ensaios às gravações, de um sótão na França ao palco de um café em Tóquio, sempre buscando.

 

A curadoria do evento lhe deu carta branca e você selecionou quatro filmes de sua preferência.

Gente da Sicília representa o cinema de recherche de Jean-Marie Straub e Danielle Huillet. Fiz um documentário sobre eles, a quem admiro muito. Número Zéro, de Jean Eustache, foi um filme que ajudei a restaurar. Muito pouco conhecido e extraordinário. Beauty # 2 surpreende quem só conhece a obra pop, multicolorida, de Andy Warhol. Poucos artistas foram tão fundo ao filmar a realidade, o que tem de mais asfixiante. E Trás-os-Montes, escolhi por causa da minha língua e também como homenagem ao que foi meu grande mestre, António Reis, que assina o filme com Margarida Cordeiro.

 

 

QUEM É

PEDRO COSTA

CINEASTA PORTUGUÊS

Nascido em Lisboa, 1959, é autor de obra de difícil classificação, no limite entre ficção e documentário. Seus curtas e longas investigam a linguagem e os imigrantes de Cabo Verde na capital portuguesa

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