Pesquisador investiga o hábito de colecionar

O pesquisador alemão Phillip Blom perguntava-se o que leva alguém a gastar dinheiro para adquirir selos, bonecas, carrinhos, livros raros e guardá-los em caixas, estantes e vitrines. Por que não apenas admirá-los? Intrigado, decidiu averiguar o ato de colecionar, um passatempo com contornos de obsessão e o resultado é Ter e Manter (Record, 308 páginas, R$ 42), livro em que explora a história de uma compulsão que remete aos tempos medievais. Blom descobriu uma série de excentricidades envolvendo nomes históricos, como Pedro, o Grande, da Rússia, que colecionava de tudo, inclusive dentes humanos. Ou ainda o faro do inglês Hans Sloane, cujo rico acervo, comprado pelo governo inglês, tornou-se o embrião do Museu Britânico. Apesar de lidar com tantos tipos de coleção, Blom garante não ter a compulsão de guardar nada, como conta na entrevista a seguir, feita por e-mail.Por que escrever uma obra como Ter e Manter? O ato de colecionar sempre me fascinou como uma atividade humana aparentemente inócua que pode explicar muito sobre quem somos e por que vivemos do modo que vivemos.Qual a diferença entre um fetichista e um simples colecionador? Somos todos fetichistas na medida em que algum objeto adquire um valor para nós de um talismã, conectado à sorte, às lembranças, à esperança. Às vezes, isso é muito evidente, especialmente quando as relações com objetos tornam-se abertamente sexualizadas, mas acredito que isso não se aplica a apenas colecionadores.Ainda existem pessoas que trapaceiam, roubam, matam ou até se casam para alimentar ou financiar suas coleções? O caso mais recente que conheço é o de um certo Stephane Breitwieser, que roubou centenas de milhões de euros em pinturas e outros trabalhos de arte apenas pelo simples desejo de tê-los consigo. Ele foi preso no ano passado. A avareza estará sempre conosco, suponho.Seria o medo extremado da morte o principal motivo de se colecionar? Ou seja, os objetos possibilitariam uma forma de a pessoa permanecer mesmo depois de morta?Acredito que é isso mesmo.Ainda existem pessoas que são arqueólogos do presente? Isso depende muito do que é colecionado. Se são acumulados objetos do nosso tempo atual, eu seria tentado a chamá-los assim, embora um arqueólogo faz mais que simplesmente colecionar: ele também analisa os objetos e os contextualiza.Por que Hans Sloane foi o último dos chamados ?colecionadores universais?? Porque tornou-se simplesmente impossível colecionar de tudo, todos os ramos do conhecimento, em um mundo que se expande rapidamente em termos de referências e horizontes. Depois de Sloane, nenhum indivíduo que eu conheça montou uma coleção respeitável que abarcasse todas as áreas do conhecimento humano. Especialização tornou-se o caminho.Quando a coleção começa a controlar o colecionador? Uma pergunta muito interessante e somente um colecionador pode responder por si mesmo. Isso será sempre um processo gradual e, enquanto os extremos ficam claros, a continuidade oferece muitas facetas. Não somos o tempo todo preocupados com uma conquista de algo que está à nossa frente, ao guardar ou aumentar nossas posses?Você coleciona algo hoje em dia? Não. Amo tudo que é bonito, mas não sinto uma urgência indomável de possuir. Em vez disso, gostaria de me desfazer das minhas posses até que, um dia, não terei mais nada do que não precise, ao menos nada que não me provoque um prazer estético. Isso é um sonho, mas difícil de realizar para quem ama livros, como eu. O que me consola é que leio os livros que compro e não apenas os tenho pelo simples prazer de possuir.

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