Pesquisador analisa o espaço do negro nas novelas

Há muito que se questiona o verdadeiro espaço conquistado pelos atores negros dentro da dramaturgia brasileira. Reduzidos muitas vezes a papéis estereotipados, como os de serviçais, bandidos ou escravos - no caso de novelas de época - os atores negros também são marginalizados pelas histórias, que sempre os classificam como pobres e sem muita instrução.Dando seqüência ao trabalho iniciado em 1988, o roteirista Joel Zito de Araújo, de 46 anos, fez um estudo a convite da Universidade de São Paulo, que, em princípio, deveria resultar em um documentário sobre a questão racial no País, mas que acabou seguindo a linha de análise do espaço dado ao negro na televisão brasileira. O trabalho teve apoio do Núcleo de Telenovela da USP.Foram dois anos e meio de pesquisa e, diante do volume do material levantado, Joel direcionou seus estudos para a participação do negro nas novelas desde a implantação da televisão no País. Foi daí que nasceu o projeto A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira, um livro de 350 páginas, publicado pela Editora Senac acompanhado de um filme documentário de 1h30 de duração, que serão lançados no dia 5 de dezembro, no Espaço Unibanco de Cinema, em São Paulo. "Fiquei um tempo nos Estados Unidos fazendo pesquisas sobre a presença negra na televisão norte-americana. Foi quando vi o documentário premiado Color Adjustement, do falecido diretor Marlon Riggs. Fiquei impressionado com o trabalho dele e pensei em fazer algo semelhante para o Brasil", explica o roteirista, que já lançou pela Editora Vozes o livro Tirando a Máscara, uma coletânea de artigos publicados em jornais.Durante sua pesquisa, Zito conta que utilizou basicamente os arquivos da Rede Globo e da extinta TV Tupi, através da Cinemateca Brasileira. "Também pesquisei novelas produzidas por outras emissoras, mas como das 85 novelas produzidas até hoje na televisão brasileira a maioria foi feita pela Globo e pela Tupi, acabei utilizando muito mais os arquivos das duas", explica. Mamãe Dolores - Zito conta que ficou impressionado com a riqueza do material encontrado no espólio da Tupi. "Muitas imagens ninguém sabia que existiam, como os últimos capítulos de O Direito de Nascer e A Cabana do Pai Tomás. Quando a Globo fez um especial sobre novelas, no final da década de 80, utilizou imagens de O Direito de Nascer estrangeiro, porque não sabia desse material da Tupi", lembra o roteirista. A atriz Isaura Bruno, que deu vida à personagem Mamãe Dolores, é um exemplo citado por Araújo de discriminação nas telenovelas. O sucesso alcançado por O Direito de Nascer em 1964 foi tão grande que o elenco liderado por Hamilton Fernandes (Albertinho Limonta), viajou por todo o Brasil para reencenar o último capítulo da novela em estádios e campos de futebol lotados. "Ironicamente, a atriz negra que mais fez sucesso na história da telenovela brasileira morreu dez anos depois como uma desconhecida, vítima de enfarte quando vendia doces na Praça da Sé, em São Paulo. Naquele momento, ela até foi socorrida por pessoas que a reconheceram como Mamãe Dolores, mas acabou chegando morta ao hospital", diz.Memórias pessoais - Araújo faz questão de dizer que o título A Negação do Brasil tem um duplo sentido propositalmente. "Negação se refere a negro mesmo, e também significa a negação da diversidade racial do Brasil."Tanto no documentário, quanto no livro, Araújo utilizou depoimentos de atores negros como Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Léa Garcia, Maria Ceiça, Isabel Fillardis, Toni Tornado e Zezé Motta, entre outros. Alguns inconvenientes impediram a participação de outros atores negros conhecidos, como Chica Xavier e Antonio Pitanga, que não puderam prestar depoimentos, mas são citados no projeto, que é também uma homenagem ao comediante Grande Otelo.Araújo destaca que o filme e o livro diferem um pouco seus estilos, em função de sua própria experiência pessoal. "No livro, me preocupei mais em centralizar a pesquisa nas novelas, destacando os depoimentos dos atores e a abertura que os negros tiveram na tevê a partir da era Boni (José Bonifácio de Oliveira, consultor da Rede Globo). Já no filme, o processo foi um pouco diferente, falando sobre a presença do negro na história da telenovela e como isso era tratado nas últimas cinco décadas para cá. Posso dizer que, como um afro-descendente, acabei por usar também um pouco das minhas memórias pessoais no processo de roteirização".

Agencia Estado,

22 de novembro de 2000 | 20h05

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.