Pesquisa revê diário de Guimarães Rosa no 3º Reich

Um dos capítulos menos conhecidos da biografia do escritor João Guimarães Rosa começa a ser escrito. O autor é o alemão Georg Otte, chefe do departamento de letras anglo-germânicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O objeto da pesquisa é um diário escrito por Rosa durante sua passagem pelo consulado brasileiro de Hamburgo, na Alemanha, entre 1938 e 1941. As anotações do autor de Grande Sertão Veredas são pontilhadas de ironias, observações sobre bombardeios aliados, a cultura alemã, a natureza encantadora e problemas relativos ao cargo diplomático que ocupava naqueles anos. Permeiam o texto ainda esboços de contos e poemas e uma forte preocupação estética revelada mesmo em apontamentos corriqueiros.As primeiras análises de Otte sobre o diário mostram o impacto sentido pelo escritor ao encontrar uma Alemanha diferente da que ele idealizara, governada pela brutalidade e intolerância dos nazistas. Impacto que o escritor procurou resolver utilizando-se da ironia e do seu amor pela natureza. O primeiro recurso se manifesta, por exemplo, em um comentário sobre uma montagem oficial do Fausto para glorificar a superioridade da cultura ariana. O trecho no qual o escritor exalta a qualidade da obra-prima é precedido de um exclamativo "Heil, Goethe!", alusivo à saudação nazista a Hitler.Já o entusiasmo diante dos cenários naturais é um dado conhecido da vida de Rosa - nascido em Cordisburgo, pequena cidade do sertão de Minas Gerais. Mas durante sua passagem por Hamburgo, segundo Otte, a descrição da paisagem serviu como elemento de fuga diante do cenário de destruição em que a Europa havia se transformado na época. Para o pesquisador, "a natureza parece servir como arma irônica que relativiza ou mesmo ridiculariza a importância dada aos acontecimentos da época". O diário alemão de Rosa começou quatro anos depois de ele ingressar no corpo diplomático brasileiro e se desvincular definitivamente da medicina. As boas relações entre o Brasil de Getúlio Vargas e a Alemanha de Hitler revelam o prestígio do jovem diplomata no Itamaraty. Com o rompimento entre os dois países em 1941, Rosa foi destituído de seu posto em Hamburgo e internado em um campo de prisioneiros em Baden-Baden antes de voltar ao Brasil e continuar sua carreira na diplomacia.A análise do conteúdo do diário alemão do escritor talvez ajude a elucidar algumas das principais características da sua fase madura - cujas obras principais são Corpo de Baile e Grande Sertão Veredas, ambos de 1956. Outra contribuição importante será desenhar os contornos políticos do autor, que durante toda a vida definiu-se como apolítico. O entusiasmo de Rosa pela cultura alemã manifestou-se desde cedo com o aprendizado da língua e reflete-se, na obra-prima Grande Sertão, no pacto demoníaco inspirado no herói faustiano de Goethe.Rosa mostra-se indignado com as notícias e ações dos nazistas contra os judeus. Fica inconformado com a proibição que impede a crianças judias o acesso a uma praia pública. Otte salienta que a imunidade diplomática e a manipulação e censura do regime mantiveram o cônsul afastado das atrocidades e do cenário de guerra. O diário alemão de Rosa faz parte do Fundo Henriqueta Lisboa, que integra o Acervo de Escritores Mineiros da faculdade de letras da UMFG. Trata-se de uma cópia do texto original que se encontra desaparecido. Nem os herdeiros do escritor imaginam que um dia ele possa ser encontrado. O conteúdo do texto alterna trechos de português, francês e alemão e uma série de recortes de jornais locais da época. O professor Otte vai publicar até o final do ano o diário - precedido de um estudo sobre a estadia do cônsul-adjunto no Terceiro Reich.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.