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Pesquisa aponta texto pioneiro em português

Quem acreditava que o primeirodocumento escrito em português era a Notícia do Torto ou oTestamento de d. Afonso II, de 1214, pode começar a contarcom uma diferença de 40 anos para o surgimento do primeiro textoescrito no idioma. O professor galego José Antonio Souto Caboapresentou, na semana passada, um documento que encontrou naTorre do Tombo, em Lisboa, que afirma ser de pelo menos doisanos antes de 1175.Trata-se do pacto entre os irmãos Gomes e Ramiro Pais.No documento, escrito em galaico-português, um dos irmãos secompromete a não contestar os direitos do primeiro em relação àssuas terras e, em troca, o segundo deverá ajudar a defender oprimeiro no caso de agressões de terceiros. Apesar de estar semdata, Souto Cabo encontrou uma forma de datá-lo como sendoanterior a 1175. A data foi determinada pelas indicações dotexto em latim, do outro lado do pergaminho, um suporte paraescrita feito de pele de carneiro."Os escrivães preferiam sempre o lado da carne, porquepegava melhor a tinta. Do lado do pêlo, está um contrato emlatim, de compra e venda, datado de 1175", conta Souto Cabo.Como o pacto tinha um prazo de validade de dois anos, odocumento de compra e venda deveria ser posterior: "Era normala reutilização do pergaminho depois da caducidade do outro lado.A reutilização era sistemática."Além de utilizarem o suporte no verso, na época eracomum apagarem os textos dos pergaminhos para reescreverem nele.Souto Cabo acredita que as características do pergaminho fizeramcom que o texto em português do pacto entre irmãos não fosseperdido: "Esse pergaminho é muito fino e por isso não dá paraapagar. No entanto, como é muito fino, isso confere aopergaminho uma grande qualidade."Segundo Souto Cabo, o fato de o notário ter escrito opacto em português deve-se a que o texto não repetia o que osdocumentos habituais costumavam apresentar. Normalmente, osnotários tinham modelos de documentos e apenas trocavam os dados, como os nomes de locais e de pessoas - o que era impossível como pacto.Para ajudar a fixar a data do pergaminho, Souto Caboencontrou em Braga documentos relativos aos irmãos Ramiro eGomes, que ele acredita serem os mesmos do pacto, apesar de Paisser um sobrenome muito comum na época. O pacto entre os irmãosPais tinha sido depositado na Mitra de Braga - foi para a Torredo Tombo devido ao trabalho de Alexandre Herculano, que noséculo 19 percorreu as bibliotecas dos conventos portuguesesrecolhendo os documentos mais antigos e mais valiosos para oarquivo nacional.Com o pacto, Souto Cabo, professor da Universidade deSantiago de Compostela, apresentou mais três textos: a "Nóminade Pedro Viegas", de 1184; a "Carta de Foro de Benfeita" e o"Escrito de Pai Soares", ambos da segunda metade do século 12,mas sem data certa. Os três documentos também encontram-se naTorre do Tombo.A maior parte dos documentos em galaico-português dessaépoca são jurídicos: segundo Souto Cabo, apesar de o portuguêsno fim do século 12 até os primeiros anos do século 14 ser alíngua de cultura da Península Ibérica, falada nas várias cortes, os textos literários que chegaram até hoje foram através decancioneiros, com cópias de cópias de cópias, sem seremdatáveis. Além disso, os copistas alteravam palavras e mexiamnos textos.Polêmica - O anúncio da descoberta de Souto Caboprovocou uma polêmica entre os especialistas da área. Até adireção da Torre do Tombo tomou partido: "Do ponto de vista doArquivo Nacional da Torre do Tombo, o texto em português maisantigo é o descoberto pela professora Ana Maria Martins",afirmou o vice-diretor da instituição, José Vicente. A Torre doTombo relutou em dar autorização para a publicação da imagem dotexto descoberto por Souto Cabo.Vicente refere-se à Notícia de Fiadores, umdocumento revelado em 1999. A Notícia de Fiadores, assimcomo o texto do pacto entre irmãos, tinha várias formas latinasou próximas do latim. Segundo um texto da professora RitaMarquilhas, professora de Lingüística da Universidade de Lisboa,a Notícia de Fiadores tem morfologia e sintaxe portuguesas,sem a flexão nominal (declinações) da gramática latina e compronomes pessoais átonos, inexistentes em latim.Comentando a apresentação de Souto Cabo, Rita escreveque "é apenas datável por conjectura, com base em provascircunstanciais e escassas, uma vez que as personagens referidasno documento ainda não foram historicamente identificadas. ANotícia de Fiadores continua sendo, assim, o mais antigodocumento que se sabe ser original, datado e escrito emportuguês".Prudência - Para o professor Ivo de Castro, da Faculdadede Letras de Lisboa, "a argumentação do professor Souto Cabo émuito convincente, mas não serve como prova e não substitui umadata exata. Não é prudente afirmar que o pacto entre os doisirmãos seja o documento mais antigo escrito em português".Castro considera que a descoberta dos dois documentosfaz parte de um esforço de pesquisa na área de história dalíngua iniciado há alguns anos: "Agora estamos tendo osprimeiros resultados desse esforço." Ele considera que poderãosurgir novas descobertas antecipando a data.Castro conta que o primeiro documento que marca o inícioda separação entre o latim e o romance (nome como é conhecida aforma intermediária entre o latim e a língua independente) é aEscritura de Doação da Igreja de Lordosa, do ano 882. Porexemplo, no meio do texto, em vez da palavra "monástica"aparece "moástica" - uma marca do futuro desaparecimento daletra "n" entre as vogais "o" e "a", que fizeram com que,em português, surgisse a palavra mosteiro, do latimmonasterium.

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