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Pesadelo com as mãos

Para quem sempre usou o garfo, a faca e a caneta com a mão direita, é difícil tornar-se canhoto da noite para o dia: a mudança de mão requer uma longa e paciente aprendizagem.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2014 | 02h06

De cara, renunciei a algumas atividades não essenciais. Por exemplo, parei de fazer a barba, e isso me aliviou. Mas o alívio físico foi contrariado pela passagem do tempo, pois em cada manhã o espelho revela a velhice crescente do meu rosto.

Na batalha ajuizada pelo tempo, os pelos pretos perderam feio para os brancos. Melhor evitar o espelho, esse objeto temível, tão comum num banheiro, o lugar diário de necessidades fisiológicas, cuja higiene só a mão direita fazia.

A fratura dessa mão tem contribuído muito para o racionamento de água. O tempo do banho e o volume do líquido precioso foram drasticamente reduzidos. Como bom amazonense, eu tomava três banhos por dia; agora, tomo um único banho de gato selvagem. Se dois milhões de paulistanos fraturassem a mão direita, cada represa de São Paulo voltaria a ser um mar de água doce.

Por tudo isso, ando mal asseado e também mal-educado: não estendo a mão para ninguém e implico com todo mundo. Tornei-me um casmurro, mas um casmurro compassivo com as crianças, que acham graça da mão estropiada e recebem carinho e bombons da outra.

Por comodidade, virei vegetariano, mas sem exagero: a carne de peixe dispensa o uso de faca. A renúncia à carne bovina, mesmo moída, também ajuda a conter o desmatamento: de cada três ou quatro bifes devorados, um vem do gado que pasta na Amazônia devastada.

Em surdina, a mão fraturada e imobilizada trabalha pela preservação do meio ambiente. Eis um ato político, verdadeira façanha para quem se entedia com os acontecimentos do Brasil e do mundo, e ainda considera o trono de qualquer rei ou rainha uma poltrona vazia.

Também por comodidade, já não uso meias e só calço sapatos sem cadarço. Tentei andar descalço pelo bairro, mas na terceira caminhada com os pés no chão, aconteceu algo inusitado: algumas pessoas apontaram meus pés sujos, outras olharam meu rosto comido pela barba branca, e alguém gritou: "Lá vem o profeta do Largo da Batata". Uma voz mais aguda acrescentou: "É o maluco da Sumidouro".

Aprendi a ser paciente com essas mordidas morais e com outras, mais físicas. Querem um exemplo? A banana. Descascar uma banana é um exercício moroso, mais sexual que amoroso, pois comer essa fruta banal mobiliza boca e mão esquerda.

O grande problema, caro leitor, é escrever. Se eu já era vagaroso com a direita, imagine com a mão escangalhada. Passo horas noturnas exercitando a caligrafia, essa arte antiga, infelizmente em desuso. Enfim, me habituei às letras tortas e às linhas bêbadas, inclinadas e sinuosas. E também à lentidão de um quase analfabeto.

O diabo é que, depois do acidente que me forçou a ser canhoto, passei a sonhar com as minhas mãos. Numa noite destas, a mão esquerda disse para a outra: "O que você tem, que eu não tenho?".

A pobre direita fungou e respondeu com raiva:

"O que você nunca teve, e agora tem, sua idiota".

Com o passar do tempo, percebi uma estranha correspondência entre as duas mãos. A força capciosa da direita corresponde à impotência da esquerda. Antes do acidente, a ação da primeira dialogava com a inação da segunda. Agora, é a esquerda que zomba da outra, como se dissesse: "Chegou minha vez de agir, sua pérfida".

O sonho mais recente foi tenebroso: eu tomava o café da manhã quando as duas mãos, ausentes do meu corpo, abriram furtivamente a janela, aproximaram-se da mesa e confabularam à minha revelia. Depois me chamaram para o centro dessa mesa, prometendo mundos e fundos. Quando curvei a cabeça, fui agarrado pelo pescoço. Sufocado, escutei uma voz sussurrar:

"Afaste-se da mesa".

Mas como?, consegui balbuciar.

"Seja um estranho em sua própria pátria. Um peregrino nunca vende a alma ao estável."

Foram as últimas palavras do pesadelo.

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