Pés gelados

- Doutor, eu entro no chuveiro e lá está a calcinha da minha mulher pendurada numa torneira.

Luís Fernando Veríssimo, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

- Sim.

- O armário do banheiro está sempre cheio das coisas dela. Potes de creme, sprays, loções, bisnagas. Não tem lugar para as minhas coisas. Já tentei jogar tudo fora mas não adiantou. No dia seguinte o armário estava cheio das coisas dela, de novo.

- Sim.

- A coberta da cama está sempre presa no lado dela. Não consigo puxar para o meu lado.

- Sim.

- Não posso usar o telefone. Está sempre ocupado.

- Sim.

- E o pior, doutor. Os pés gelados dela encostando na minha perna, na cama. Quando eu menos espero.

- Sim, sim. Só não entendo por que o senhor está me contando tudo isso. Parece mais assunto para um conselheiro matrimonial, não um psicólogo.

- É que a minha mulher morreu há mais de um ano, doutor!

A águia voa na sexta. Os "blues" não costumam ter letras muito inspiradas. São sempre lamentos sobre amores desfeitos, mulheres infiéis e outras misérias da vida, ou sexo puro, sem poesia. Mas algumas letras escapam deste padrão simples. Num blues que começa assim "They call it bloody Monday, but Tuesday"s just as bad" ("chamam de segunda infernal, mas a terça-feira é igual", tradução aproximada da minha inteira responsabilidade), o cantor enumera o que faz na semana toda. E canta: "The eagle flies on Friday." "A águia voa na sexta." Um raro exemplo de linguagem críptica, ou refração poética, numa letra de "blues". A frase não significa que na sexta-feira o cara se solta, cai na noite, etc., porque no verso seguinte ele diz que nos sábados sai para se divertir. Significa o que, então? O que, na gente, se livra das convenções e da mesmice do resto das semanas e alça voo - mesmo que apenas teoricamente - nas sextas-feiras? De qualquer maneira, guarde esta justificativa, para o caso de algum dia ter que se explicar: sexta-feira é o dia da águia.

3.19. Outro verso de "blues" fora do comum (tradução minha, também inexata):

"Vou deitar minha cabeça num trilho na solidão

e deixar o trem das 3.19 pacificar meu coração."

Note-se a especificação. Aparentemente, nenhum outro trem além do das 3.19 garantia a mesma eficiência. E pontualidade.

Perdedor, vencedor. O perdedor cumprimentou o vencedor. Apertaram-se as mãos por cima da rede. Depois foram para o vestiário, lado a lado. No vestiário, enquanto tiravam a roupa, o perdedor apontou para a raquete do outro e comentou, sorrindo:

- Também, com essa raquete...

Era uma raquete importada, ultimo tipo. Muito melhor do que a do perdedor. O vencedor também sorriu, mas não disse nada. Começou a descalçar os tênis. O perdedor comentou, ainda sorrindo:

- Também, com esses tênis...

O vencedor quieto. Também sorrindo. Os dois ficaram nus e entraram no chuveiro. O perdedor examinou o vencedor e comentou:

- Também, com esse físico...

O vendedor perdeu a paciência.

- Olha aqui - disse. - Você poderia ter um físico igual ao meu, se se cuidasse. Se perdesse essa barriga. Você tem dinheiro, senão não seria sócio deste clube. Pode comprar uma raquete igual à minha e tênis melhores do que os meus. Mas sabe de uma coisa? Não é equipamento que ganha jogo.

É a pessoa. É a aplicação, a vontade de vencer, a atitude. E você não tem uma atitude de vencedor.

Prefere atribuir sua derrota à minha raquete, aos meus tênis, ao meu físico, a tudo menos a você mesmo. Se parasse de admirar tudo que é meu e mudasse de atitude, você também poderia ser um vencedor, apesar dessa barriga.

O perdedor ficou em silêncio por alguns segundos, depois disse:

- Também, com essa linha de raciocínio...

É hoje. - Onde você vai?

- Não sei. Tenho que fazer alguma coisa. Alguma coisa nova na minha vida. O tempo está passando.

O tempo está escasseando. É hoje. Tem que ser hoje. Não tente me segurar, mulher.

- Mas querido...

- A águia voa na sexta feira!

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