Perto do coração de Clarice

Beth Goulart mergulha nos silêncios e emoções da escritora e encontra a sua essência

Crítica: César Augusto, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2010 | 00h00

Para Clarice Lispector, "O propósito do teatro é fazer o gesto recuperar o seu sentido, a palavra o seu tom insubstituível, permitir que o silêncio, como na boa música, seja também ouvido, e que o cenário não se limite ao decorativo e nem mesmo à moldura apenas ? mas que todos esses elementos, aproximados de sua pureza teatral específica, formem a estrutura indivisível de um drama". Beth Goulart, por sua vez, parece seguir o pensamento da escritora em sua peça, Simplesmente Eu, Clarice Lispector, que, segundo a própria atriz, autora e diretora deste trabalho, "é uma declaração de amor".

De fato, a cortina de tiras que emoldura o palco, os pequenos adereços, a música e, mais ainda, a luz são elementos que vão além do decorativo, ajudando a contar as histórias. O primeiro gesto da peça é o da luz numa intensa marca que reforça o branco do cortinado e parece dizer que esta cor, ali presente, é resultado do giro da palheta de cores, um turbilhão delicado pelo qual vão passar as personagens, gerando com sua velocidade uma única cor, o branco. Merecem ainda destaque o passeio pelo jardim botânico de Ana e o vermelho tango de Lóri. A música, como a luz, ora salienta ora contrapõe alguns momentos do ápice dramático em seu estertor e da transição entre o cotidiano e o epifânico. Até mesmo os xales parecem refletir as tramas tecidas pela escritora-personagem, Clarice Lispector.

Com relação à dramaturgia, apesar de se ver temas como vida e morte, criação, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, entrega, inspiração, aceitação e entendimento, como diz o programa da peça, parece mesmo que a linha de força talvez seja o caminho da individuação através do amor. Amor como Eros, como deus primordial, a quem, por vezes, por sua beleza lhe falta o bom senso, caindo no desregramento; outras vezes, ajuda a organizar o Cosmos a partir do Caos. Parece ser esta linha ambivalente que conduz Beth nas interpretações das personagens Clarice Lispector, Joana, Ana, Lóri e a mulher sem nome de Perdoando Deus.

Por conta disso, o fluxo constante das emoções, visível através do olhar, sempre a ponto de transbordar, é o que a atriz expressa durante toda a peça. O silêncio inicial da personagem Clarice Lispector prepara a plateia para o que virá: uma peça construída a partir do embate entre as pulsões, e não da causalidade de uma possível crônica sobre a artista e seus personagens. Beth dispõe os fragmentos do texto de forma a privilegiar as sensações, fazendo com que a sequência textual surja como resultado de um impulso interno, como nas palavras de Clarice: "Uns cosem para fora, eu coso para dentro." Mas não seria este o trabalho básico de qualquer ator, em última análise: procurar a lógica interna do que uma personagem expressa, a posteriori, através da fala e do gesto? Sim, também. Porém, a diferença aqui é que a palavra ou o gesto passam a ser mais pretexto para desvelar a trama "indivisível" do universo intrincado das personagens, a beleza terrível de seus paradoxos. Sendo possível, portanto, construir, literalmente, o "Eu sou aos poucos", da obra Água Viva, de Clarice. Mesmo assim, parece que há ainda espaço em alguns poucos momentos para que a atriz, principalmente na pele da escritora, explore ainda mais o silêncio ? em seu grito mudo ? como condutor, reiterando o próprio caminho proposto.

Assim, é que Beth Goulart parece mergulhar verticalmente nos interstícios, nos espaços vazios das palavras de Clarice, ela mesma, e de suas personagens, com a acuidade, a integridade e a maturidade de quem sabe que ? se por um lado "a arte é um vazio que a gente entendeu" e, por outro, o que desejamos "ainda não tem nome" ? talvez, seja impossível resvalar na essência do homem e a sensação de incompletude permaneça e o acompanhe. Mesmo assim, ele continua sobrevivendo, "apesar de".

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