Perto das palmeiras selvagens

Quando uma amiga americana me disse que eu ia penar no frio de Iowa, dei de ombros e respondi que os amazonenses têm pele de sucuri. Mas ela estava certa.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2011 | 03h08

A terceira semana de outubro daquele ano já distante foi suportável; em novembro os escritores dos trópicos adquiriram um ar triste, de palmeiras transplantadas para um mundo gelado. Nossos refúgios em Iowa City eram o cineclube, a maravilhosa livraria Prairie Lights e os bares. A complicação começou na madrugada de 18 de novembro, quando o alarme contra incêndio disparou no nosso alojamento, onde moravam estudantes da universidade de Iowa. Os 26 escritores de quatro continentes ocupavam o sétimo e último andar, e eu só tive tempo de pegar meu casaco e descer as escadas aos tropeços, empurrado por uma turba de poetas e narradores desesperados, ouvindo vozes em espanhol, alemão, russo, polonês, árabe, hebraico, suaíli e, suponho, em urdu e hindi. Essas vozes de Babel abandonavam as alturas para vencer a distância entre o céu da cama morna e o inferno do gelo exterior.

Em novembro eu já era amigo da espanhola Anatxu e do argentino Rodrigo. Um russo, cujo nome não me recordo, nos acompanhava aos bares e ao cineclube. No outro lado da rua, nós quatro olhávamos para o edifício, esperando sinais de fumaça, enquanto os bombeiros verificavam se era alarme falso ou fogo de verdade. O russo tirou uma garrafinha de vodca do bolso e nos ofereceu um gole. Ele era o único que, além de não sentir frio, ria dos friorentos. Depois de tomarmos a garrafinha, o russo, como um mágico da estepe, sacou outra do bolso e abriu-a. Quando Rodrigo perguntou se essa garrafa era para nós, o russo disse: Egg Zactl, com a mesma pronúncia de Pnin, a personagem patética de Nabokov. Rodrigo deu uma gargalhada, e logo depois os bombeiros deram a boa notícia de que se tratava de um alarme falso. Subimos de elevador até o sétimo andar e, no dia seguinte, voltamos à Prairie Lights, ao cineclube, ao mesmo bar onde nós quatro bebíamos e conversávamos sobre cinema e literatura. Lá pelas tantas, quando falávamos em espanhol, o russo boiava, e só lhe restava beber e ouvir, com ar perplexo.

Na madrugada do dia 29 o alarme disparou de novo, e dessa vez decidi que era preferível morrer asfixiado ou queimado a suportar o frio siberiano de Iowa. Permaneci quieto, encasulado no cobertor, ouvindo o tropel e as vozes em pânico. Depois ouvimos a mesma versão dos bombeiros: travessura de algum estudante que disparara o alarme.

Em dezembro era impossível sair do quarto aquecido. Da janela eu via uma paisagem branca com árvores desfolhadas, só tive ânimo de correr até a Prairie Lights e pegar um romance que eu encomendara. Anatxu, nossa amiga espanhola, quis ficar em Iowa; o russo e suas garrafinhas haviam sumido, eu e Rodrigo decidimos ir embora: ele foi para Nova York, eu viajei para o Sul, fugindo do frio e de alarmes falsos, atraído pela beleza do Rio Mississipi e vendo extensas plantações de milho e algodão. Desci até New Orleans e naveguei no grande rio, um dos meus sonhos antigos. Em New Orleans algumas coisas me fizeram lembrar Belém e o Norte do Brasil: a culinária picante herdada de índios, africanos e europeus; o clima quente e úmido; uma indolência sem culpa, pequenas casas de madeira onde morava a pobreza. No Vieux Carré da cidade, entre a Jackson Square e a Royal Street, procurei e encontrei ruas estreitas com casas avarandadas. Não senti o cheiro de jasmim, nem de açúcar, bananas ou maconha. O ar parecia parado: o ar do porto, úmido e morno. Tampouco ouvi acordes de piano de alguma composição de Gershwin. Mas diante de uma casa avarandada no Bairro Francês, uma palmeira estranhamente agitada projetava sombras também estranhas na calçada.

O romance que eu acabara de ler na viagem ainda estava vivo na minha memória. Atrás de um muro de tijolos imaginei a casa onde, numa festa de artistas, o jovem médico e nada sedutor Harry Wilbourne apaixona-se por Charlotte Rittenmeyer: uma mulher casada, mãe de duas filhas. Possuídos por um idealismo teimoso e louco, esses dois ingênuos vivem 11 meses siderados por um amor romântico, cujo desfecho será trágico, dignamente trágico.

Eu estava longe de Iowa City e agora seguia de perto uma das histórias narradas no romance que eu havia lido. Depois fui ao Mississipi e visitei Pascagoula, que ainda mantinha resquícios do antigo vilarejo de pescadores da década de 1930. Lá, me deparei com o cenário da tragédia romanesca e conheci um escritor americano, de Utah. Quando ele soube que eu era brasileiro, me perguntou o que eu estava fazendo naquele fim de mundo.

O mesmo que você, eu disse, apontando o livro que ele segurava. Era a primeira edição do romance Palmeiras Selvagens, de William Faulkner.

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