Personalidades do teatro lamentam morte de Guarnieri

"A bruxa está solta", disse a atriz Fernanda Montenegro sobre a morte do dramaturgo e ator Gianfrancesco Guarnieri, na mesma semana em que as artes cênicas brasileiras perderam o ator Raul Cortez. Guarnieri morreu na tarde deste sábado, 22, aos 71 anos. Internado no Hospital Sírio-Libanês desde o dia 2 de junho com insuficiência renal, ele estava sedado desde quinta-feira. Personalidades do teatro nacional lamentaram a morte.Fernanda Montenegro, atriz "A bruxa está solta. Está indo embora toda uma geração de ouro e não há reposição de peças. Trabalhamos tanto juntos, fizemos Black-tie, teleteatros, novelas. Meus Deus, tivemos um reencontro emocionante em Belíssima. Mesmo doente ele era um menino no palco, tocava a platéia no coração. Além de um grande ator, era um homem de ação política, visão social e um amigo e tanto."Nicete Bruno, atriz "Trabalhamos muito na TV, tanto eu como o Paulo (Goulart) tínhamos uma amizade e uma admiração muito grande por ele. Nossos filhos cresceram juntos, brincavam juntos. Perdemos um homem de valores extraordinários, tão grandiosos que ficarão para sempre em nossa memória."Zé Renato, dramaturgo "Com as mortes de Guarnieri e Raul (Cortez), todo um tempo se acaba. E esse tempo que desaparece a gente nunca mais vai recuperar. Guarnieri deu uma imensa contribuição de vida, de trabalho e de dedicação. É um momento muito triste." João Batista de Andrade, cineasta e secretário de Estado da Cultura "Lamento profundamente. São duas perdas tristes, dolorosas para a Cultura, a dele e a do Raul Cortez. Guarnieri tem um significado imenso para a cultura brasileira, ajudou a criar toda uma geração, ensinou a pensar, a reformular idéias no Teatro de Arena. Eu o dirigi em dois filmes, Eterna Esperança (1969) e A Próxima Vítima (1982). A secretaria da Cultura vai criar uma manifestação para reverenciar esses dois atores, Guarnieri e Cortez."Benedito Ruy Barbosa, dramaturgo "Ele é o grande responsável por eu ter iniciado minha carreira de dramaturgo. Ele me incentivou a escrever minha primeira peça e, quando foi assisti-la, invadiu o palco e puxou os aplausos da platéia para uma das cenas.Até então eu era uma jornalista que tinha 5 empregos para me manter. O Guarnieri era assim, uma inspiração. Fez duas participações especialíssimas em novelas minhas (Terra Nostra e Esperança), mas já estava doente. Perdi um mestre."Zé Celso Martinez Corrêa, diretor teatral "Um excelente ator, maravilhoso. O potencial era extraordinário. Excelente compositor. Um homem de teatro, de TV, de cinema, completo. Agora vai fazer companhia a Raul Cortez, e devem estar impressionando todo o Olímpio de Dionísio. Ele era um sujeito que sempre lutou pela transformação. A morte não é um obstáculo. Fica a obra, o afeto dele."Esther Góes, atriz "Que pena. Estava no auge da sua vitalidade. Ele ajudou a me formar, no Arena. Eu era do teatro infantil, e aprendi muito com eles: Guarnieri, Boal, Milton Gonçalves, Miriam Muniz, Dina Sfat, Paulo José. Há interpretações que marcam o teatro, como o Renato Borghi no Rei da Vela. E O Tartufo de Guarnieri, eu disse isso a ele, foi inesquecível, deslumbrante. Ele deu vida real, credibilidade absoluta ao personagem. Não quis fazer a comédia, embora tivesse o recurso para fazer a blague. Que pena, ele e o Raul. Além de tudo eram corajosos, autênticos. E que não vergam. Falta gente que não verga."Bete Mendes, atriz "Grande amigo, grande talento, grande companheiro político, tinha uma sensibilidade incrível e uma família maravilhosa. Sua obra é uma referência para o teatro brasileiro porque ele fez coisas maravilhosas, como Um Grito Parado no Ar, Arena Conta Zumbi. Fiz a Maria no filme Eles não Usam Black-tie, papel que foi aumentado no cinema, um presente que ele e o Leon Hirshman me deram." Milton Gonçalves, ator "Gianfrancesco foi um dos primeiros espectadores da minha vida artística e companheiro há quase 50 anos. Ele tinha um projeto para o Brasil e acreditava na palavra como instrumento da mudança, hoje isso é cada vez mais raro. É muito duro perder amigos como ele, e também Raul Cortez, que têm a mesma maneira de ver o mundo e a mesma idéia de como mudá-lo. Ele foi meu amigo, meu irmão, meu mestre e, ás vezes meu aluno. Estou muito triste." Alcione Araújo, escritor e dramaturgo "Ele é a referência em dramaturgia para todos que fizeram teatro a partir dos anos 60, Vianinha, Paulo Pontes e mesmo aqueles que quiseram contestar suas idéias mais tarde. Trouxe para o palco as questões urbanas e, em sua peça Eles não Usam Back Tie, apareceu no teatro brasileiro o homem de macacão. Pessoalmente era doce, muito comprometido idelogicamente, mas sobretudo afetivamente com o Brasil e nossas questões. Nunca foi teórico ou polemista, mas realizou uma grande dramaturgia." Claudio Lembo, governador de São Paulo "Guarnieri teve uma grande qualidade que foi a concepção do teatro de Arena - uma válvula de escape que apresentava temas políticos e peças brasileiras. Soube retratar de forma notável uma realidade que sempre estava escondida. Foi inovador e mudou o teatro brasileiro."

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