Max Rossi/Reuters
Max Rossi/Reuters

Personagens múltiplos evocam o início dos anos 70 em 'Depois de Maio'

Filme do cineasta Olivier Assayas é um dos mais belos apresentados no Festival de Veneza

LUIZ ZANIN ORICCHIO - ENVIADO ESPECIAL,

04 de setembro de 2012 | 03h10

VENEZA - Com seu Après Mai (Depois de Maio), Olivier Assayas traz um dos mais belos filmes deste Festival de Veneza. Falando da geração que se seguiu ao Maio de 1968, Assayas une a pulsão política do seu filme anterior - o magistral Carlos - a um frescor juvenil tocante. A história ambienta-se em 1971.

Seus jovens personagens são herdeiros de uma revolução que se diz derrotada ou interrompida. Ainda creem nela. Mas têm de se ver com outras determinantes da época, como as drogas, a viagem mística ao Oriente, o confronto com a esquerda ortodoxa e careta. Gilles (Clément Métayer) é um óbvio alter ego do diretor. Tomado pela política, tenta também desenvolver uma trajetória artística como pintor. Há muita alegria e muito frescor no filme, como se disse. Mas Après Mai é banhado de uma evidente melancolia.

Assayas não o nega. "Não queria dar a impressão de uma juventude idílica, porque a minha não foi assim. Havia o amor, a ternura, claro, e tudo isso está no filme. Mas havia também a pressão do compromisso político, a responsabilidade que sentíamos em relação à classe operária: e a ideia de revolução, que funcionava como superego impositivo para a nossa geração."

Apesar de Gilles ser o foco da narrativa, a vocação de Après Mai é coral, distribuída entre vários personagens, que são os companheiros de turma e de convicção política. Dessa forma, veremos os jovens nessa encruzilhada da vida, e nesse momento muito particular da História, tentando encontrar seus caminhos. Isso numa época em que o coletivo se mesclava de modo muito intenso ao individual. Namoros podiam ser rompidos por divergências de linha política. Essa tensão está lá, nas imagens, no ritmo e na forma de se articular do filme. Faz parte da linguagem.

Aliás, Après Mai, além de acompanhar a trajetória de luta e amor dos jovens, relembra o clima intelectual da época, as discussões que então se travavam. Uma delas, diz respeito ao próprio cinema. Enquanto o Partido Comunista achava que as obras deveriam ser didáticas e acessíveis, para "iluminar o proletariado", os jovens entendiam, como Maiakovski, que não existe arte revolucionária sem forma revolucionária. Quem pensava uma nova sociedade não poderia usar a linguagem "burguesa" da narrativa clássica. Os ortodoxos pensavam exclusivamente no conteúdo e em seu didatismo. A jovem guarda dava importância à forma, sem descurar do conteúdo. Percebem o quanto tudo isso é atual?

Essa discussão influencia a própria maneira como Assayas constrói seu cinema. "Tento fazer um cinema comunicativo, mas que não repita o que já foi visto. Entendo o cinema não como uma forma de comunicação, ou como jornalismo, que deve se preocupar com a informação. É uma arte e assim deve repercutir no espectador para que ele possa ser afetado e, a partir daí, tirar suas próprias conclusões."

Mesclando ideias e ação, sentimento e reflexão, Assayas faz um cinema dialético, que não se impõe ao espectador, mas o leva ao pensamento. E à emoção, porque os termos não são contraditórios, ao contrário do que se julga.

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