Susana Vera/Reuters
Susana Vera/Reuters

Personagem pronto para o romance

Vargas Llosa comenta o novo livro, em torno da vida de aventuras de um diplomata britânico

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

"Gosto muito da ideia de que a aventura de um novo romance seja também uma aventura pessoal para mim", confessou Mario Vargas Llosa a esta repórter, na sexta-feira passada, falando de sua casa em Nova York, numa entrevista exclusiva para o caderno Sabático. Referia-se ao novo romance, O Sonho do Celta, com lançamento mundial previsto pela editora espanhola Alfaguara para novembro. Contou que foram três anos só de pesquisa até começar a escrever o livro, passando por Brasil, Peru, Congo, Inglaterra e Irlanda. "Eu pouco sabia da Irlanda, por exemplo, uma realidade que me é distante. Tive que estudar sua história, viajar para lá, visitar umas tantas pessoas... o resultado é que gostei dessas andanças. Também foi a primeira vez em que mergulhei na realidade africana, o que foi experiência fascinante para mim."

Que livro é este que cruza paisagens tão distintas? Vargas Llosa, hoje trabalhando como professor-convidado da Universidade de Princeton, conta que chegou ao personagem-chave do romance quase por acaso, lendo a biografia do escritor Joseph Conrad (1857-1924), este britânico de origem polonesa, que ingressou na marinha e foi comandante de vários barcos ingleses - o que o transporta ao imaginário das aventuras marítimas. "Pois quando Conrad chegou ao Congo belga, como capitão de navio, logo conheceu Roger Casement, um diplomata inglês de origem irlandesa, que servia por lá há oito anos. Casement abriu os olhos de Conrad para a tragédia humana naquele lugar, para as atrocidades do colonialismo, para a exploração da população local. Não fosse por ele, talvez Conrad não tivesse escrito sua obra-prima, Coração das Trevas."

De fato, entrou para a história o "relatório Casement", em que o diplomata expõe para a coroa inglesa, em dois grandes dossiês, a matança de mais de uma centena de congoleses por oficiais brancos nas áreas de extração de borracha no antigo Congo belga, então uma colônia miserável, sob as ordens de Leopoldo II da Bélgica. À época o relatório provocou um escândalo internacional, que levou a inúmeras prisões e deu a Casement a oportunidade de também investigar a situação dos indígenas que extraíam a borracha - el caucho - na região amazônica. Vargas Llosa então passou a procurar as pegadas do diplomata no Peru, na Colômbia e mesmo no Brasil, onde teria servido como cônsul britânico no Rio. "Descobri um personagem já pronto para o romance. Casement foi uma das primeiras vozes a se insurgir contra o colonialismo na Europa. Depois, embrenhou-se na realidade latino-americana e, como se não bastasse, envolveu-se com nacionalistas irlandeses, conspirando a favor da independência da Irlanda, ao término da 1.ª Guerra. Conspirou tanto que acabou preso, condenado como traidor e sentenciado à forca." Também teria pesado contra Casement a suposição de sua homossexualidade, usada pelo serviço de inteligência britânico como forma de desqualificar sua luta anticolonialista.

Ainda ao longo da entrevista, Vargas Llosa comentou que a maneira como trabalhou em O Sonho do Celta tem muito a ver com a construção de outro conhecido romance seu, A Guerra do Fim do Mundo, de 1982, em que também deixa o chão peruano, sua fonte maior de inspiração, para vir ao Brasil envolver-se com o levante e o massacre do arraial de Canudos. Há similaridades até formais entre estes dois épicos de Llosa. Se no novo romance ele parte de Conrad para chegar a Casement, em A Guerra... parte de Euclides da Cunha para encontrar Antonio Conselheiro. "Tanto num livro quanto noutro, tomo de saída o material histórico e passo a tratá-lo com a liberdade da imaginação. Ou seja, faço da história matéria-prima para a ficção, podendo até acrescentar alguma dose de magia."

A mistura entre realidade e fantasia é algo que o interessa de perto depois de tantas, e tão arrastadas, polêmicas literárias entre os adeptos do realismo estrito e os entusiastas do realismo fantástico. Para Vargas Llosa, que um dia já se gabou de dizer "nunca acreditei em fantasmas", esse debate felizmente ficou para trás. Reconhece o feito notável que vem a ser a obra de García Márquez, outro Nobel latino-americano, de quem foi amigo e com quem rompeu, anos atrás, por razões ideológicas e pessoais. Mas prefere admitir que a ficção se renova quando consegue livremente cruzar o umbral que separa o real do mágico. "As novas gerações de escritores latino-americanos vão se livrando daquelas divisões. São escritores menos provincianos, escrevem sobre seus países sem cabeça bairrista e sem tirar partido só da exploração do pitoresco."

Vargas Llosa chegou a Princeton há um mês, instalou-se em Nova York com a mulher, Patrícia, e, ao menos até que o Nobel chegasse, estava disposto a dedicar boa parte de seu tempo aos dois cursos pelos quais foi contratado: um sobre técnicas do romance e outro sobre Jorge Luis Borges, por quem admite nutrir "paixão secreta e pecaminosa", como diz em um dos ensaios contidos em Sabres & Utopias, lançado esta semana no Brasil pela editora Objetiva. "A prosa de Borges é uma anomalia, uma forma que desobedece intimamente à predisposição natural da língua espanhola para o excesso, optando pela mais estrita austeridade", explica ao insistir que há sempre um plano conceitual e lógico na ficção borgiana que se sobrepõe aos demais. E arrisca uma comparação poética ao afirmar que o texto do mestre argentino é como a música: deve ser reconhecido só de ouvido.

 

 

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