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João Wady Cury
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Personagem como sonoridade

Dramaturgo marfinense traz ao Brasil a riqueza da oralidade africana em teatro com mais de trinta peças escritas

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

31 de outubro de 2019 | 03h00

O dramaturgo marfinense Koffi Kouahoulé (ou Kwahulé, como seu sobrenome também é grafado) traz em sua bagagem, quando chegar a São Paulo nesta semana, um teatro com mais de 30 peças escritas sempre fundamentado na oralidade, ponto forte na tradição africana. Fará uma oficina no fim de semana para dez sortudos. Abordará a personagem como sonoridade e não como arcabouço psicológico. “Meu teatro tenta propor uma cerimônia durante a qual uma comunidade, simbolizada pelo público, passa a compartilhar suas ansiedades de morte, mas também seus impulsos de vida”, diz Kouahoulé, em entrevista pouco antes de embarcar.

 

ORALIDADE RETUMBANTE 

“Acredito que a oralidade nos leve de volta à raiz do teatro”, conta Kouahoulé, que há anos saiu da Costa do Marfim e foi morar na França. “O teatro, se nos referimos ao significado grego, é o lugar onde vemos. Mas o que é dado para ver é a palavra. O instinto oral permite que a fala seja ação, drama. Muitas vezes confundimos a oralidade com a chamada linguagem popular. Para que o discurso seja dramático, é aconselhável colocar o personagem em um aqui e agora. O que importa é o que acontece com o personagem (o comediante que fala) aqui e agora fora da narrativa focal. É essa presença urgente que permite que a fala seja abordada e faz do teatro o lugar onde se vê a palavra mais do que se ouve. Sem essa oralidade, a palavra permanece, no melhor dos casos, um simples virtuosismo decorativo”. No Sesc Belenzinho está em cartaz uma de suas peças, Big Shoot.  

 

DISSECAÇÃO TEXTUAL 

Tem uma peculiaridade a peça Criatura – Uma Autópsia, em cartaz nas sextas de novembro, a partir de amanhã, na Cia da Revista, na Alameda Nothmann. Para escrever o texto, baseado em Frankenstein, da escritora Mary Shelley, a atriz e dramaturga Bruna Longo entrou na intimidade da autora: pesquisou nos seus diários e manuscritos originais em Londres

 

DECÚBITO VENTRAL  

Prepare-se, Gerald Thomas vem aí e está com os órgãos à mostra. O diretor planeja duas montagens para o ano que vem. Uma atende pelo doce e meigo título de Gastrointestinal Prayer, com a atriz Lotte Andersen, e estreia em março de 2020 em Copenhague. No segundo semestre, em São Paulo, o foco é a vida do pintor Rembrandt. Mas, segure-se, tem mais de onde saiu isso. Um Circo de Rins e Fígados: O Teatro de Gerald Thomas é o nome do livro que o diretor lança em 11 de dezembro no Sesc Avenida Paulista. Traz 24 de seus textos. E não é pouco. Haja órgãos!


3 perguntas para Marilia Medina

Atriz e diretora diz que teatro a organiza

1. O que é ser atriz?

Entrar em cena invisível.

2. Por que teatro?

É o jardim zoológico do homem, onde solto minhas feras sem julgamento.

3. Qual o seu motto?

Escolha se você quer ser feliz ou infeliz . É a gente que escolhe sempre. Quando a pessoa resolve ser infeliz pode ter tudo e mesmo assim vai sempre escolher algo para ser grandiosamente infeliz. Eu escolhi ser feliz.

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