Perseguindo a pureza

Será que o fervor emocional e os mascaramentos bem-intencionados podem constituir explicação para uma grave abdicação tanto do espírito quanto da razão?

DANUBIO TORRES PIERRO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2013 | 02h07

O argentino Julio Cortázar foi um personagem ambíguo e fascinante. De fato, este jovem intelectual da América Latina foi uma figura contraditória, alvo de admiração e de repúdio, de amizade e de irritação. Por quê? Porque, por um lado, foi um escritor muito sábio em suas construções literárias, um artista capaz de criar um mundo comovente e memorável regido por leis próprias, um homem sensível que amou Bach e o jazz, que conheceu como a palma de sua mão a evolução da literatura moderna e que traduziu com grande inspiração para o espanhol Poe, Gide, Yourcenar. Por outro lado, e talvez apesar dele mesmo (apesar de suas luzes e seus brilhos), foi um exemplo do equívoco em que é possível cair quando se abraça uma causa política sem a capacidade de discernimento para que nessa adesão atuem o exercício crítico e a rejeição dos catecismos ideológicos.

Desse modo, e resistindo a um exame rigoroso do político (exame que ele praticou com tanta agudeza em outras áreas do mundo das ideias e do pensamento), Cortázar incorporou, principalmente, os princípios da versão cubana do socialismo revolucionário, de cujas distorções e perversões lamentavelmente ainda não conseguimos nos despir. Após um momento de dúvida, essa adesão não conheceu titubeios nem se desembaraçou de uma devoção que sossegou ao mesmo tempo numa entrega sentimental e nesta equívoca boa-fé que costuma animar os iludidos. Será que o fervor emocional e os mascaramentos bem-intencionados podem constituir explicação para uma grave abdicação tanto do espírito quanto da razão?

Assinalamos acima que Cortázar foi uma figura contraditória e isso se manifesta de maneira mais profunda na sua concepção da arte e suas escolhas políticas. A primeira teve como nota dominante uma subversão radical da percepção da realidade com a qual o escritor se deparou. Em Bestiário (1951), Final de Jogo (1956), As Armas Secretas (1959), Os Prêmios (1961), Histórias de Cronópios e de Famas (1962), O Jogo da Amarelinha (1963), Todos os Fogos o Fogo (1966), Modelo para Armar (1968), Octaedro (1973), Cortázar irrompeu como um aniquilador da literatura naturalista e realista, como um impugnador do discurso literário linear e apegado aos cânones convencionais, um espírito repleto de irreverência, ironia e humor, um malabarista que fazia passes mágicos com as palavras, um artista que desafiava as leis da exceção porque sabia ou intuía que o cotidiano e o fantástico convivem num permanente jogo de mútuas influências.

Nesses contos e romances, Cortázar alcançou o auge de sua arte, organizando uma narrativa que sabia explorar os elementos da tensão dramática e oferecer uma visão do fantástico.

Também soube, com astúcia imaginativa, dedicar-se à investigação de situações inesperadas, mas domésticas, que provocavam uma sacudida estética e emocional no leitor. Por exemplo, uma casa é tomada pelos fantasmas da neurose; um morto dita o rumo da vida alheia.

Dono de inesgotável originalidade criadora, denunciou o escândalo que se aninha na ordem das famílias, rompeu os clichês que separam tempo e espaço, analisou (como Poe) o duplo que todos trazemos em nós, declarou sua simpatia por este "outro lado" que se situa além da lógica e da realidade real, perseguiu uma pureza que no final se impôs para ele como impossível (como em Final de Jogo), detestou toda forma de rotina e conformismo. Por esse caminho, se consagrou como um mestre do artifício e conquistou com pleno direito um lugar na primeira linha da literatura latino-americana.

O Jogo da Amarelinha, que comemora agora os 60 anos de sua publicação, é uma referência fundamental na história da literatura do nosso continente, romance filho dos sonhos surrealistas que alentara a suspeita de uma realidade segunda no desenrolar-se do cotidiano.

O curioso foi que, a acerta altura, Cortázar estendeu suas fronteiras além do inquietante âmbito doméstico e a saga de tias, avôs e sobrinhos, e ruas e praças passaram a ser os personagens e cenários quase de epopeia nos quais se veiculava o afã de agarrar e postular um mundo na sua exterioridade (apenas em sua exterioridade, é preciso sublinhar) mais amplo e rico, vinculado em geral ao compromisso político militante, e no qual a perspicácia para trabalhar com a criatividade os materiais mais anódinos foi perdendo potência e definhando, numa reiteração na qual, só de vez em quando, aflorava um sabor esquecido do escritor que ele fora em outros tempos.

Obras como Livro de Manuel (1973), Alguém Que Anda por Aí (1977) ou Amamos Tanto Glenda (1980) dão conta dessa mutação. Como não percebeu que a rigidez e o dogmatismo ideológico o levavam a renunciar a suas luminosas epifanias literárias? Será que ele pensou alguma vez que, se analisasse até as últimas consequências a ideologia que adotou, seus livros teriam de obedecer aos cânones do "realismo socialista"?

O que redime qualquer contradição, é que o passar do tempo e a sensibilidade dos leitores foram justos com a obra de Cortázar: como ensina a história, seus livros mais importantes se impuseram a suas opiniões políticas e conquistaram o lugar que lhes cabe na literatura. Honra a quem honra merece. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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