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Perplexidades

A política tomou o lugar da transcendência religiosa e tem sido uma decepção em todo lugar

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 03h00

Se eu fosse um moralista metido a herói confortavelmente protegido pela liberdade da democracia na sua versão brasileira, meu título seria um compreensível e curto expletivo o que, para quem não aprecia o que eu escrevo, provaria meu conservadorismo. Como se preservar fosse algo a ser condenável justamente para quem continua reacionariamente usando velhas polarizações cuja função social explícita é justamente a de culpar o outro. O fato é que enxergamos um alarmante viés autoritário, típico de sistemas monárquicos, escravocráticos e imoralmente desiguais, nos quais a liberdade democrática é imediatamente traduzida em polarizações condenatórias e listas negras.

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Vale notar, neste contexto, a surpreendente “brasilianização” dos Estados Unidos governados por um Donald Trump autoritário, ambicioso, nacionalista, descomprometido com a verdade e rico. Esses ingredientes dos muros. Fechar as rotinas, sobretudo as jornalísticas, fundamentais para o funcionamento da liberdade política, não é só uma mania brasileira. Ela ocorre em toda coletividade na qual a boa-fé, ao lado da honradez devida aos cargos públicos, é ofendida por mentiras e perversões pessoais. 

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A política tomou o lugar da transcendência religiosa e tem sido uma decepção em todo lugar. Seja porque a responsabilidade de quem chega ao poder pelo voto aumenta de modo diretamente proporcional ao desmoronamento das aristocracias, seja porque num mundo devassado e transparente compreendemos que a vida coletiva depende de modo absoluto de nosso comportamento.

Nas monarquias, os personagens governavam por direito divino. Hoje, os eleitos se empoderam usando todos os meios disponíveis. Estaria eu advogando a volta reacionária da uma nobreza de sangue azul? 

Negativo. Estou revelando minha perplexidade diante do banimento mundial de dimensões como educação, sabedoria, discernimento, sinceridade, honra e vergonha no campo da política. Se no passado ela era um negócio conjugal e familístico, realizado pelas “casas reais”, hoje ela é um pantanal no qual interesses nacionais são englobados pelos egoísmos do mercado em família. Em outras palavras, decapitamos reis somente para substituí-los por tiranos e, no caso brasileiro e sul-americano, por caudilhos no melhor feitio sultanesco. O campo da política transformou-se numa disputa de gângsteres, como faz prova o Estado do Rio de Janeiro. 

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Na opinião do velho brasilianista Dick Moneygrand, um manifesto “centrão” esconde brasileiramente um “direitão” e um “esquerdão”. Mas o problema de vocês, complementa o professor, é que tudo é governado familisticamente. Não é fácil transitar da dominação tradicional e carismática para a burocrática legal, ou combiná-las de modo harmonioso.

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Alguma novidade? Nenhuma, pois até a impecável América de Madison, Lincoln e Roosevelt tem, graças a Donald Trump, decepcionado. Sua brasileira polarização desnuda um suposto equilíbrio quando, tal como fazemos habitualmente, põe na lista negra manifestações contra o seu estruturado e estruturante racismo segregacionista. 

Causa perplexidade ver em riacho um sistema político baseado na liberdade e na igualdade. Lá como cá, falta valorizar uma esquecida fraternidade. Sobretudo pelo agravamento mundial de uma brutal desigualdade negadora dos valores que gente de minha geração tanto perseguia. A solidariedade é a ponte entre o potencial de conflito da liberdade com a igualdade. 

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Os promotores estão novamente em cena. Mas o filme que desvendam é uma reprise. Todos assistimos muitas vezes a esse filme e, no Rio de Janeiro que foi o berço da nossa realeza quando a corte portuguesa fugiu para esse outro lado de Niterói em 1808, continuamos a manter essas abusivas ilhas monárquicas em plena República.

Devido, porém, a um surto de direitas, a roubalheira da província que foi corte se torna um claro caso de incesto. De autorroubo rotineiro capaz de formar uma dinastia de governadores indiciados e presos. A chamada corrupção é equivalente a engravidar inocentes. No caso o povo que, obviamente, ainda não foi ensinado a discernir. 

Nem há como fazê-lo num sistema educacional fundado no ditado e na cópia com os professores, “tios”, provando nossa incapacidade de distinguir a casa da rua.

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Pior do que essas vergonhas, porém, é ter a obscena certeza de que os políticos traidores de seus cargos, credos e juramentos solenes serão, tempos depois, inocentados por meio de autênticos golpes legais. Por manobras em nome da Justiça que se vê não apenas cega, mas nua diante de um país sem compromisso com o certo e o errado.

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