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Perplexidades

Se 8 têm a riqueza das nações, estamos diante do milagre da multiplicação ao inverso

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2017 | 02h00

Não me conformo com gigantescas desigualdades salariais. Como antropologista, eu, obviamente, compreendo que um banqueiro, um empresário, um jogador de futebol, um astro de novelas, um cantor-compositor popular ganhe num mês muito mais o que toda a minha família conseguiu juntar em muitas gerações. Mas a compreensão não acaba com o meu ressentimento de ser professor num país onde ensinar é uma atividade profundamente desvalorizada, coisa para quem não sabe!

Meu avó foi desembargador pelo Estado do Amazonas e meu pai era fiscal do consumo. Não ganhavam mal e eram parte das “classes dominantes”, conforme aprendi atônito no diretório da faculdade no qual aprendi minhas primeiras e erradas letras ideológicas.

Não sofri carência material e nossa casa, com seus serviçais, reproduzia o ordinário de vida dos que eram significativamente chamados de “remediados”. Gente que o realismo de vovô Emerentina dizia ser parte de uma “pobreza envergonhada” porque não podiam usar sapatos furados, tinham contas a pagar e manter um estilo de vida de molde aristocrático. 

Ouvi, é claro, histórias de funcionários públicos, que “roubavam”, por oposição à honestidade canina da família que recusava seguir o caminho da “política” - uma dimensão destinada a seduzir, enriquecer e, eventualmente, desmoralizar.

 

Vivi, pois, comendo o que havia na mesa. Não poderia jamais imaginar que os “remediados” de hoje levariam seus mal-educados filhinhos à Disney, enquanto meus cinco irmãos e eu íamos no máximo ao cinema.

 

Vivi num mundo com larápios, mas sem corruptos. Alguns dos quais eram conhecidos e compadres. Arrumavam-se pelos laços pessoais chamados de “política” e era inimaginável que um partido de esquerda viesse a engendrar um sindicato do crime composto por controladores do patrimônio do País e alguns empresários ousados e canalhas.

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Hoje, o ideal é todo mundo ser rico. Donald Trump e seus irmãos brasileiros encarnam esse estilo próprio dos vencedores arrogantes, que se sentem violentados quando viram réus. O melhor símbolo da riqueza como valor absoluto, porém, é o grupo dos oito hipermilionários que detêm um patrimônio igual à metade mais pobre da população do planeta.

Eu fui ensinado que há vergonha tanto na extrema pobreza quanto na riqueza podre, porque desmedida. Daí a minha indignação com essas brutais diferenças. Oito tendo mais do que um bilhão é um acinte a qualquer código moral. Os seus deuses podem aceitar (e justificar) tal desigualdade, mas a minha moralidade humana - finita, indigna e conservadora - não tolera esse abismo.

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A perplexidade diante de um mundo quantificado ao culhãonésimo, como dizia meu tio Silvio; um universo canibalizado pelo mercado e em sintonia com a comunicação de tudo com todos e de todos com o planeta que também é visível, faz com que se veja o tamanho da desigualdade e o abismo da (in)diferença nas quais estou, sem pedir, engolfado.

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Aprendi que a transformação de tudo em mercadoria levaria a um estilo de vida onipotente e afinado ao suicídio. Hoje, essas absurdidades são reais.

 

Se oito possuem (com toda a filantropia que praticam e a boa vontade que podem ter) a riqueza das nações, estamos diante do milagre da multiplicação ao inverso. Multiplicamos tudo, mas, quanto mais produzimos, pior distribuímos. A abundância engendra riqueza e, ao mesmo tempo, desperdício e miséria.

Creio porque é absurdo! Dizia Tertuliano nos primórdios do cristianismo que propôs deixar o familismo tribal, partidário e faccional para abraçar a fraternidade universal. Não faça com o outro aquilo que você não quer que seja feito com você!

O que mais fazer com uma coluna?

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A mensagem de um Richard Moneygrand deprimido afirma que Donald Trump presidente vai além de um acidente eleitoral. Ele é, de fato, o retorno da hierarquia e do particularismo patriótico, numa sociedade ressentida com o universalismo e com suas perdas globais. Trump - continua meu mentor - é prenúncio de choque com a mídia e dos conflitos de interesse que ameaçam, como disse Obama num notável discurso de despedida, a dimensão mais árdua da democracia, um autogoverno funcional. Esse “self-government”, cuja primeira exigência é dizer não a nós mesmos.

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PS: Lamento a morte do ministro Teori Zavascki e continuo perplexo com o poder de mando das facções degoladoras que, aprisionadas, têm mais influência do que os professores teoricamente livres da Uerj e da Unef - essas facções do bem que se estão acabando.

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