Pérola Negra e Vai-Vai

O carnaval já vai longe mas o samba fica, e algumas questões que a festa suscita ou evidencia ainda pairam sem resposta. Uma delas é a rarefação cada vez maior de afro-brasileiros na condução dos destinos das agremiações e instituições do samba. Outra é a consequente transformação do propósito inicial das escolas, nascidas como expressão de arte e cultura negra.

Nei Lopes, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Para tentar compreender, observemos que, desde os tempos coloniais, a presença de negros nas ruas da capital e de outras cidades brasileiras, nas festas públicas, cantando, dançando e tocando seus instrumentos, foi uma constante. E essa presença, além do divertimento ou folguedo, parece que traduzia também, nos tempos idos, uma tentativa de participação, como forma de inserção no espaço social.

Assim, quando, no final da década de 1920, se organizaram as primeiras escolas de samba, o que os pioneiros sambistas mais queriam era certamente mostrar sua arte e granjear respeito através de sua participação no carnaval. Se seu objetivo fosse apenas o folguedo puro e simples, eles teriam permanecido com seus cordões anárquicos e seus blocos espontâneos, de "sujo", o que inclusive era bem mais fácil.

Essa necessidade de conquista política através da estética parece ter também motivado, ao longo do tempo, a transformação de outras expressões da performance afro-brasileira, como o maracatu, os caboclinhos, o bumba meu boi, etc. Até mesmo o afoxé baiano, que nasceu como troça, para satirizar algumas lideranças do candomblé, acabou por se tornar expressão artística carregada de beleza e mesmo religiosidade. E assim foi com o carnaval de rua em todas as "Américas Negras" (expressão criada por Roger Bastide), do sul dos Estados Unidos, passando pelo Caribe, até o Rio da Prata.

Mas a opção pela arte acabou por cobrar seu preço. E, no ambiente do samba carioca, isso começou a ocorrer quando a antiga repressão foi dando lugar à cooptação e ao dirigismo do Estado, e mais tarde à absorção da festa do samba pela indústria cultural, como item de consumo.

Num cenário em que, ao longo das últimas décadas, a cultura popular vem sendo levada a inúmeras reconfigurações, em obediência ao mercado, o espetáculo das escolas de samba não poderia permanecer ileso. E talvez a mais importante consequência desse processo, além da perda dos referenciais afro-brasileiros originais, foi a assunção do comando do samba por empresários de todos os ramos, lícitos ou ilícitos, em detrimento dos líderes sambistas. E isso é mais sério se lembrarmos que, apesar dos bambambãs de sempre, a liderança das primeiras escolas cariocas era exercida principalmente por músicos e poetas, como Ismael, no Estácio; Cartola, na Mangueira; e Paulo na Portela.

Por isso foi que mais uma vez nos surpreendemos ao observar pela TV, na apuração dos desfiles da cidade de São Paulo, a presença de vários dirigentes negros na mesa condutora dos trabalhos. Trabalhos esses que concluíram pela vitória da escola de samba Vai-Vai, fundada em 1930 como cordão carnavalesco, e lídima representante, no carnaval paulistano, da comunidade negra do Bexiga.

Sobre a identidade desse bairro, oficialmente denominado Bela Vista, e tradicionalmente destacado como núcleo preferencial dos imigrantes italianos, em 2008 o livro Bexiga, Um Bairro Afro-Italiano, de Márcio Sampaio de Castro, trazia novas luzes. Tendo como principal fator de aglutinação a proximidade das ricas mansões da Avenida Paulista, onde a mão de obra negra era indispensável, a região, que já abrigava redutos de população africana e crioula desde o século 18, tornou-se, após a abolição, um dos territórios negros da capital paulista, condição que até hoje ostenta.

Na contramão da Vai-Vai, a escola de samba Pérola Negra, colocada em décimo primeiro lugar no grande desfile paulistano, optou por um enredo - Abraão, o Patriarca da Fé - no qual antevemos uma abertura por onde pode estar começando a entrar no carnaval um outro item da moderna sociedade de consumo.

O porquê então de as escolas não serem mais expressões da cultura afro-brasileira nem representarem mais os anseios das comunidades onde nasceram talvez agora comecem a se esclarecer.

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