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Pernilongos liliputianos

No momento em que escrevo esta crônica, estou sendo atacado, devorado, deglutido, picado e sei lá mais o quê

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 03h00

Só uma coisa me faz esquecer um pouco da covid: os pernilongos. No momento em que escrevo esta crônica, estou sendo atacado, devorado, deglutido, picado e sei lá mais o quê.

De nada adiantou os unguentos do mercado, os sprays, sachês, tomadas, raquetadas, ventiladores, fumacês, copos de água ou orações. Eles são um exército sem pátria, são obstinados em sua função natural de picar, repicar e atormentar. 

Se apago a luz e me jogo na cama, logo percebo um zunido no ouvido. Sinto como se um dentista sádico usasse uma micro broca para perfurar meus tímpanos. Me arrepio. 

O que tanto esses pernilongos querem comigo?

Do jeito deles, na língua deles, talvez estejam tentando me passar uma mensagem. E se o pernilongo estiver zunindo os números da Mega Sena nos meus ouvidos? Ou se estiver me passando a fórmula que irá nos livrar dessa pandemia? E se for um mosquito do futuro querendo me prevenir sobre algum acontecimento? 

E se a sobrevivência da raça humana depender daquilo que o pernilongo está tentando me dizer? Hasta La Vista, Baby!

Paciência, né? Seja qual foi o recado, a missão já foi um fracasso. Não entendi nada e ainda tentei matar o mensageiro. 

Eles continuam desembarcando no meu quarto como se ele fosse uma espécie de Normandia imaginária. Tenho marcas de sangue na parede branca. Do ponto de vista deles, dos pernilongos, sou um facínora. Sou o pior dos seres. Ou sou um Godzilla desorientado. 

Esses pernilongos, esses liliputianos de uma figa! Serei eu um gigante de marshmallow sendo servido de banquete desde o dia do meu nascimento? Ou pior, sou um deus pagão sendo adorado, sou o pilar que sustenta toda a vida religiosa dos pernilongos, mosquitos e borrachudos do meu apartamento. Eles estão rezando.

Como diz a canção “pois se eles querem meu sangue, verão o meu sangue só no fim...”

Resistirei. Tentarei. Ou não. Deixa quieto. 

Pernilongos, tão frágeis, tão suscetíveis a um simples tapa, são capazes de nos colocar de joelhos. E arrebentar com o nosso humor. Talvez tenha aqui alguma lição que eu ainda não consegui aprender.

E não aprendi porque não durmo mais. E sem um pouco de sono, a cabeça da gente trabalha em outra velocidade. E o cidadão começa a matutar coisas sobre a vida, reviver inseguranças, planejar assaltos à banco, repassar fracassos e sentir medo. 

Os pernilongos me lembram dos boletos, das lives do presidente, dos testes de covid, do emprego e do medo de não dar conta.

Não sei se eu dou conta. Sem ideia, exausto, os pernilongos foram meu único assunto possível. Vai ver essa crônica foi cochichada por um deles. Cochichada como uma espécie de vingança.

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