Perlman. Leituras à primeira vista

Itzhak Perlman volta ao Brasil para sentir a plateia e só então decidir o que tocar

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h12

Itzhak Perlman resolveu da maneira mais simples possível o problema de concertos marcados com anos de antecedência: sem saber o que estará com vontade de tocar, decide seus programas apenas alguns dias antes da apresentação - e, muitas vezes, só quando já está sobre o palco.

Em um mercado competitivo e programado com quatro ou cinco anos de antecedência como o erudito, não se estende a qualquer um privilégio como este. Mas Perlman é ave rara, daqueles poucos artistas cuja fama "erudita" ultrapassa o mundo dos clássicos e o coloca em palcos tão distintos como o Carnegie Hall, a entrega do Oscar ou a cerimônia de posse de um presidente norte-americano.

O violinista volta no fim deste mês a São Paulo; faz concerto no dia 30 no Teatro Municipal, parte de uma turnê latino-americana. Na primeira parte, vai tocar, provavelmente, Mozart, Fauré e Stravinski. Na segunda, ainda não decidiu. Trará à cidade uma seleção variada de peças - e quando ele diz "variada", pode estar falando mesmo de qualquer coisa, de trilhas de filmes a arranjos de peças para outros instrumentos.

"No fundo, o que me parece necessário, em um nível muito pessoal, é a espontaneidade", diz ao Estado, na manhã de quinta. "A prática de decidir na hora o que toco começou de repente. Certo dia subi ao palco e, pronto, resolvi mudar o programa. Um violinista tem um repertório básico, que é obrigado a repetir à exaustão. Não ligo de retornar a algumas obras, que são muito importantes. Mas a simples repetição me incomoda um pouco. Além disso, me dei conta de que, nesse formato, você acaba conversando com o público, e isso é bom, as pessoas gostam. Uma vez fiz um recital e, coisa de momento, não falei nada durante a apresentação. Você não imagina a quantidade de reclamações que recebi depois!"

Perlman nasceu em Israel em 1945, mas passou boa parte da vida nos Estados Unidos, onde se radicou em Nova York. Contraiu poliomielite na infância, aos 4 anos, mais ou menos na mesma época em que começou a descobrir a música em um violino de brinquedo. A mistura de influências, o sentido de pátria, a cultura como identidade - todos esses elementos, ele diz, moldaram o músico que ele se tornaria. Por isso mesmo, quando fala da diversidade de seu repertório, é à busca de uma linguagem própria que ele dá crédito. "Talvez possa funcionar assim para alguém, mas não foi meu caso: não acordei um dia e disse a mim mesmo que queria fazer coisas diferentes do repertório standard. É um processo tão mais sutil do que isso!", ele explica. "O trabalho de um intérprete é desenvolver uma relação com a música que toca, e ela se dá por meio da técnica, do aprendizado constante. À medida que sua carreira se desenvolve, você passa a fazer escolhas quanto a fraseados, às cores que tira do instrumento. E a música que você decide tocar é aquela que permite exercitar essas características, assim como reinventá-las."

Os últimos dois discos de Perlman são testemunhas da diversidade. Em um deles, ao lado do violoncelista Yo-Yo Ma e do pianista Emanuel Ax, interpreta trios de Mendelssohn; no outro, gravou canções da tradição judaica ao lado do kantor Yitzchak Meir Helfgot. "Este é um exemplo perfeito. Eu o ouvi cantar, ele conhecia meu trabalho de violinista. Conversamos e, pronto, o convidei para gravar comigo. E o mesmo vale para os meus álbuns de jazz, meu trabalho com o cinema. Eu preciso apenas me sentir confortável. E a consequência é que saio um pouco do mundo da repetição. Mas, sobre isso, eu queria deixar claro uma coisa: há peças e peças. No concerto para violino de Beethoven, por exemplo, você só vai se repetir se for preguiçoso."

Exemplo. Além do violino e da regência, Perlman diz que hoje obtém sua maior satisfação como professor. Ele dá aulas na Julliard School, em Nova York, e sua esposa criou, nos anos 80, o Perlman Music Program, dedicado a jovens instrumentistas de cordas. A fama, garante, o ajuda a manter esses projetos, pautados pelo que chama de uma "filosofia bastante pessoal". "Aprender a tocar é uma coisa, o básico, não questiono isso obviamente. Mas não podemos parar por aí. No nosso programa, não há competição, mas, sim, o cultivo da relação entre os músicos, eles aprendem a conviver, tocar juntos, a desenvolver laços, ajudam uns aos outros", explica, e continua, rindo. "Veja, não se trata de pregação! Não sou afeito a discursos, o que exijo de mim e de meus músicos é que a gente dê o exemplo no nosso dia a dia."

Perlman foi condecorado pela Casa Branca de Ronald Reagan, já tocou para Bill Clinton e George W. Bush, subiu ao palco na cerimônia de posse de Barack Obama, em 2009. Ele não fala em preferências políticas. Sente, no entanto, que em um momento de crise econômica, como a vivenciada pelos Estados Unidos e a Europa, a cultura seja sempre a primeira vítima. Está falando de maneira geral, do contexto atual na Europa, mas também de declarações recentes do candidato republicano à presidência, Mitt Romney, que fala em cortes no National Endowment for the Arts, espécie de fundo de investimento estatal para a cultura. "Tem sido sempre assim, no mundo todo. Nessas horas, as pessoas no poder mostram que, na verdade, veem a cultura como luxo e não como algo que é fundamental na formação do cidadão. Não é a primeira vez que isso acontece, não será a última, estou certo. Mas sou otimista. A arte sempre encontra uma maneira de seguir adiante. Se o mundo acabar, esteja certo de que a última coisa a se esgotar será o poder de Mozart e Beethoven."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.